quarta-feira, 30 de novembro de 2016

GANHAR PRESENTES

Duas datas realmente importantes para mim durante a infância era o dia do meu aniversário e o natal. Ganhar presentes, o que era sinônimo de ganhar brinquedos, era uma ocasião esperada com ansiedade por vários meses. Não era raro antecipadamente escolher o objeto desejado e antecipadamente ficar sonhando com ele após realizar o necessário lobby com os adultos. Como meu aniversário era próximo ao dia das crianças, sempre exigia ganhar dois presentes, no que de modo geral era atendido.

Quanto ao natal, desde cedo minha mãe estabeleceu o habito de escrever cartinhas de papai Noel. Usava sua própria letra nas missivas, mas eu e minha irmã nunca desconfiamos da delicada farsa. Pelo contrário, levávamos muito a sério os conselhos e avaliações do papai Noel do nosso comportamento ao longo do ano e descobríamos com emoção os brinquedos escondidos debaixo da cama. Lembro-me vivamente do ano em que finalmente ganhei um ferrorama. Um dos brinquedos mais cobiçados na época. Foram longas horas dedicadas ao brinquedo sob seu irresistível encanto.


Também era habito montar uma arvore de natal em casa. Gostava de  observa-la   brilhando no escuro e de todo aquele clima de fim de ano. A programação da TV era mais direcionada a audiência infantil  através de desenhos e filmes  sobre natal. Não tínhamos, entretanto,  o habito de fazer ceia no dia 24. Não tenho o pudor de dizer que o natal era para mim apenas uma ocasião para ganhar presentes e comer mais coisas gostosas do que em outra ocasião.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

DOMINGO

O almoço de domingo era diferente do normal. O cardápio era invariavelmente frango. Os mesmos  eram comprados vivos , abatidos e preparados por minha mãe. Domingo era dia de ver TV praticamente o dia todo. Era a única ocasião na qual  minha mãe  se dedicava menos intensamente aos afazeres domésticos.

Mas domingo também era dia em que ela nos obrigava a ir a missa com ela. Nestes primeiros anos ainda não havia manifestado de modo contundente minha antipatia pela religião. Eu era jovem demais para formular qualquer posicionamento em torno desta polêmica questão. Mesmo assim não sentia qualquer entusiasmo pela fé cristã e muito menos por qualquer formulação teológica.


Por outro lado, Ignorava meu instintivo ceticismo em torno da questão e, para evitar problemas, acompanhava minha mãe a missa. Só mesmo alguns anos depois , quando tinha em torno de 15 ou 16 anos, impus a  ela a decisão de não mais frequentar a igreja. Até então havia tido uma educação católica que rivalizava com os interesses despertados pelos filmes de ficção cientifica e series de TV como Star Trek.  Desde cedo aflorou em mim um certo interesse por ciências, em grande parte isnpirado pelo clássico personagem vulcano interpretado por Leonard Nimoy.

QUANDO QUASE FIQUEI MUDO

Uma ocasião realmente dramática destes anos de primeira infância se deu quando fui submetido à cirurgia de postectomia. Operar fimose foi para mim um grande trauma. Não apenas pela operação em si, mas também pelos rigores do pós operatório. Regularmente tive que retornar por um certo período ao hospital para trocar os curativos.  Mesmo os intensos cuidados da minha avó, fazendo todo tipo de comida que eu mais gostava, não foram suficientes para diminuir meu desconforto com a situação.

Se bem me lembro, a operação fora sugerida pelo meu pediatra por conta de alguma infecção urinária. Não foi um procedimento simples, ao contrário do que é garantido pela literatura especializada. Pelo menos do ponto de vista  psicológico.


Em outra ocasião, um pediatra sugeriu a minha mãe que um pedaço da minha língua fosse cortada. Tudo por conta de uma suspeita de que eu sofria de algum tipo de dislexia. Para minha sorte minha mãe teve o bom senso de não levar a serio a sugestão. Tempos depois ,quando consultou um segundo medico sobre o mesmo tema, ele esclareceu com propriedade  que caso fosse acatada a sugestão do medico anterior,  eu muito provavelmente acabaria mudo.

A INGENUIDADE INFANTIL E SEUS PROBLEMAS

A sinceridade involuntária é normalmente atribuída ao comportamento infantil. Nada mais justo.  Em certa ocasião, quando  um vendedor bateu a porta de casa, orientado por minha mãe, fui atender ao portão com a incumbência de dispensa-lo com o argumento de que não havia mais ninguém em casa. Eu, entretanto, imprudentemente, informei que minha mãe havia pedido para dizer que não havia ninguém em casa. O que provocou risos do vendedor.

Nem sempre, entretanto, a ingenuidade infantil manifesta-se de forma tão inocente e cômica. Em outra ocasião, acho que de festividades de fim de ano, minha avó carinhosamente me presenteou com uma peça de roupa e uma lata de talco.  Recusei os presentes de forma truculenta, repudiando deselegantemente as prendas oferecidas. Pouco me importava o carinho da minha avó. Apenas estava furioso por não ter ganhado mais um brinquedo. Mesmo depois de recriminado pela minha mãe, não tinha a menor consciência de ter me comportado mal. Hoje lamento muito o ocorrido. Mas na ocasião, achava absolutamente natural minha descuidada  espontaneidade.


No fundo, as crianças não são exatamente ingênuas. Sua inocência esconde uma boa dose de narcisismo e egoismo, como fica bem claro neste meu exemplo .

O MUNDO ADULTO SEGUNDO A INFÂNCIA

Tanto na casa dos meus pais quanto na dos meus avós, a maior parte do tempo dos adultos era ocupado com afazeres domésticos. Molhar as plantas, encerar o chão, varrer o quintal, lavar roupas, etc... Havia sempre uma tarefa do tipo em execução. As vezes eu e minha irmã ajudávamos. Mas na maior parte do tempo nos dedicávamos a alguma brincadeira ou nos entretínhamos com  TV. As rotinas eram serenas. Acho que a maior parte do que acontecia no mundo dos adultos escapava a nossa compreensão. Isso explica porque lembrar a infância nos desperta certa melancolia e nostalgia. De fato a existência era mais simples porque não éramos capazes de entender a  complexidade do dia a dia e os fatos do mais simples cotidiano. Mas aproveitamos pouco esta fase porque , quando criança, idealizamos a vida adulta e o que mais queremos é conquistar aquela autonomia e liberdade de fazer o que quer, premissa que só existia em nossas representações ingênuas.

JAVALÍ

Foi quando cursava ainda o ensino fundamental que meus pais nos deram um cachorro. Era um vira lata amarelo que batizamos de Javali. Ele ficava na casa dos meus avós. Todos os dias eu e minha irmã ansiávamos por sair logo da escola e poder  brincar com nosso querido mascote. Infelizmente a alegria durou pouco. Javali era cheio de vida e não gostava de ficar na corrente. Os adultos acabaram por considera-lo inconveniente e o doaram para um vizinho. Pouco depois Javali acabou morrendo se enforcando, sabe-se lá como, com a própria corrente. Naquela época os maus tratos aos animais eram mais comuns e na maioria dos casos se quer vistos como crueldade. Mas não há nada mais cruel do que criar um cão mantendo-o preso a uma corrente.... 

SOBRE FARMACIAS

Lembro-me muito bem de quando tive sarampo, catapora e caxumba. Estas doenças de infância que são quase um rito de passagem. Ficar doente tinha suas vantagens por conta dos mimos. Mas nem sempre era simples assim. Causava-me terror as ocasiões em que por um motivo ou outro tinha que ser submetido a injeções. Certa vez foram necessárias quatro pessoas para me conter durante a aplicação de uma injeção.

Curiosamente, achava farmácias lugares fascinantes. Tinham um cheiro peculiar e agradável.  Só não entendia por que os farmacêuticos usavam jalecos já que não eram médicos. Mas sempre achei que as farmácias tinham um parentesco com os hospitais. Os dois estabelecimentos viviam de nossas enfermidades, mesmo que de modo diferentes e complementares.
Mas uma das marcas registradas das farmácias eram as balanças que gratuitamente nos informavam o peso.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

APRENDENDO A INFÂNCIA

O sentimento de infância que eu experimentava nesta época ainda  não era muito claro. Tinha a ingênua convicção de que era diferente das demais crianças, que pensava como uma espécie de quase adulto. A condição de criança me parecia inadequada. Talvez tal fantasia apenas revelasse uma necessidade natural de auto afirmação já que a vida adulta, para uma criança, não passa de um status onde é possível fazer tudo aquilo que se deseja.  Nada mais natural do que querer diferenciar-se das outras crianças. Nunca compartilhei, entretanto, convicção publica. Tratava como um segredo.

Confesso que não tenho qualquer lembrança quanto a momentos importantes do meu desenvolvimento infantil. Não sei, por exemplo, qual foi  a sensação de aprender a andar ou de  dominar a fala. Conquistas que certamente alteraram minha relação com o mundo de modo significativo, como aprender a ir no banheiro e tomar banho sozinho.  Apenas sei por ouvir falar que a primeira vez que andei foi na casa dos meus avós e em direção ao meu avô.

Minhas lembranças de infância são fragmentárias e não permitem uma periodização linear e evolutiva do meu desenvolvimento. Até porque na época eu não tinha a menor  consciência da importância destes momentos. Pouco sabia ou pensava sobre a própria existência. Como toda criança eu era pragmático e impulsivo.  


Um fato curioso que merece destaque ocorreu mais ou menos no período entre os seis e sete anos: Comecei a usar óculos. Minha professora percebeu que eu tinha dificuldades para enxergar no quadro negro  e copiar os exercícios. Foi quando descobri que sofria de miopia e astigmatismo.  Isso não foi problema algum para mim.  Acho que gostei da novidade de usar óculos. 

AMOR PLATÔNICO

Se na primeira a quarta serie do ensino fundamental a vida escolar não passava de uma obrigação amarga. A partir da quinta série, pelo menos, comecei a desenvolver laços afetivos com meus colegas de escola. Nunca fui muito de me enturmar, mas aos poucos a convivência diária  com outras crianças passou a ser importante  para mim. Mesmo assim não fazia amizades muito intimas. Na verdade eu me apegava a convivência com a classe escolar  que frequentava . Mas foi mais ou menos nesta época que se desenvolveu minha primeira paixonite platônica. Hoje nem mesmo me lembro do nome dela. 

Acho que nunca chegamos se quer a nos dirigir a palavra. Mas a simples presença dela fazia meu coração bater mais forte e, mesmo em casa, sonhava com sua companhia. Tal sentimento, como tudo que dizia respeito as minhas emoções mais íntimas, não compartilhava com ninguém.  Hoje, pelo pouco que me lembro a menina em questão nada tinha de especial. Era uma magricela alta de cabelos escorridos e grandes e expressivos olhos verdes que lhe faziam parecer um espantalho.

Não sei quanto tempo durou aquela fantasia. Mas terminou tão repentinamente como começou. Mas alguns semestres depois, já estava eu sonhando com outra garota. Esta pelo menos estava no meu circulo de amizades. O que não foi suficiente para tornar o episódio diferente. Varias vezes ameacei me declarar para ela. Como tinha menos de nove anos e nenhuma ideia de como proceder em tal situação, acabei apenas guardando aquele sentimento comigo até que, como da vez anterior, desparecesse.

A fantasia do amor romântico já havia adentrado minha imaginação através das comedias românticas e alguns clássicos do cinema tão populares da telinha da TV.  Creio que esta era a principal referencia para estas primeira paixonites infantis.


A MÚSICA DOS ANOS SETENTA

Os anos setenta foram musicalmente ricos. Na casa dos meus pais ouvíamos radio praticamente o dia todo. O aparelho da minha mãe, de válvulas, havia sido montado por um irmão adotivo que se suicidou muito jovem e não cheguei a conhecer. Tinha um certo valor sentimental. Já na casa dos meus avós, era mais comum  ouvir musica através de um  pequeno toca discos, mas que era acompanhado de duas caixas de som potentes.


Predominava naquela época a disco música e o bom hard  rock, seguido por um pouco de MPB. Definitivamente, a qualidade da safra musical daquele período muito dificilmente será repetida algum dia. Predominava  uma certa atmosfera  psicodélica que definia a sensibilidade estética  de então e fazia da musica uma experiência rítmica e física. A dança nunca foi tão popular como nos anos setenta. Mas eu  ainda era apenas uma criança. A musica servia apenas de pano de fundo para o acontecer da existência. Hoje, entretanto, ela é um lugar de memoria  e identidade  pessoal. É preciso ter certa idade para entender a expressão flash back em seu sentido mais profundo. A musica contemporânea , afinal, não tem a plasticidade necessária a conversão em um lugar de memória.

domingo, 27 de novembro de 2016

INFÂNCIA E DOMINIO DA NATUREZA

As tardes que passava com minha irmã na casa dos meus avós depois da escola, tal como me lembro hoje, eram magicas. O longo quintal possuía várias arvores frutíferas . Destacavam-se duas gigantescas mangueiras, cada uma de um tipo de manga diferente. Passei muitas tardes deitado sobre elas  colhendo mangas com uma vara de bambu ou simplesmente esperando que as mais maduras caíssem naturalmente com o vento. Existiam também pequenas laranjeiras nas quais eu e minha irmã gostávamos de ficar pendurados. Mas nunca fui muito de subir em arvores devido a  minha  fobia de altura.

O que chamava mais atenção era a lagoa na qual o quintal terminava Quando criança minha mãe havia quase morrido afogada em suas águas durante uma pescaria. Desde então passou a ter medo de mar. Não gostava nem mesmo de ir a praia. Nunca tive qualquer problema deste tipo. Na verdade, se quer aprendi a nadar. Mas quando criança também cheguei a pescar na chamada lagoa do vigário.

Ao entardecer era comum  escutar o estridente canto das cigarras preenchendo o crepúsculo de melancolia. Apesar do medo destes insetos, aprendi a prende-los em caixas de fósforos para acionar seu som quando bem entendesse. Não m,e importava o fato de que , segundo os adultos, as cigarras cantassem até explodir. 

Era mais complicado com os marimbondos que viviam voando pelo quintal. Tive muitos problemas com eles.  Vira e mexe acabava vitima dos seus ferrões. Como evitar se estavam em toda parte? Minha vingança era mata-los a chineladas ou derrubar suas casas no telhado ou nas arvores. Os adultos usavam fogo para isso. Imprudentemente eu recorria a pedradas e  quando a casa caia ao chão, corria desesperadamente para o mais longe possível. 

A praga das formigas era outro problema na casa dos meus avós. Lembro-me de ter afogado certa vez um formigueiro enorme. Era um habito comum naqueles dias afogar formigas. Algumas picavam. As que comiam as plantas eram as mais detestadas pelos meus avós. No inicio da noite, com uma vela meu avô seguia ao rastro das famigeradas saúvas para localizar o formigueiro e depositar veneno..

A natureza era viva e intensa no quintal dos meus avós  e , como uma boa criança, eu encontrava tempo para interagir com tudo.  Muitas vezes sozinho e outras na companhia da minha irmã. Gostava de matar minhocas e gongolos ,  Era divertido queima-los vivos. Obviamente, sem o conhecimento dos adultos que evidentemente não aprovavam brincadeiras que envolviam fogo.

Mas nada se comparava em proporção ao extermínio de libérulas ( papa fumos, como os chamava). As caldas e as asas ricamente coloridas enchiam os olhos e por isso  adquiri o habito de colecionar seus cadáveres em latas  . Minha avé tentava desencorajar a prática  alertando que se continuasse com aquilo, depois da minha morte, iria acabar no inferno das libérulas . Mas esta ameaça nunca surtiu qualquer efeito.

UM GATO CHAMADO COWBOY

Havia na casa dos meus avós um gato amarelo chamado cowboy. Nasceu um pouco depois de mim. Posso dizer que crescemos juntos. Ele  foi meu primeiro pet. Cowboy morreu de velhice. Gozou de uma existência bastante longa para um gato. Durou um pouco mais de vinte anos. Nos  seus últimos dias já não miava mais, tinha perdido todos os dentes e mau conseguia andar, Mas ninguém teve coragem de sacrifica-lo.

Nos anos setenta do ultimo século os animais de estimação ainda não eram objetos da atenção e cuidados  especiais tão comuns hoje em dia. Cowboy se alimentava com a mesma comida que eu e nunca foi a um veterinário. Apesar disso até o fim manteve-se perfeitamente saudável. O  bichano não era apenas parte da rotina da casa, mas gozava do status de um membro da família.

Sempre tive gatos por perto. Seja na casa dos meus pais ou dos meus avós. Eles simplesmente escolhiam morar com a gente. Nunca tivemos a preocupação em adotar esses  mascotes. Eles simplesmente apareciam.

sábado, 26 de novembro de 2016

OS DILEMAS DO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO

O lúdico exercício de colorir usando lápis de cor e caneta idrocor, era o único momento da vida escolar onde estar  dentro da sala de aula parecia realmente valer a pena. Gostava de dar vida aqueles desenhos na folha branca e depois compara-los com a versão dos meus colegas. Sempre achava que os meus ficavam melhores e exibiam as cores mais bem combinadas.

Ser alfabetizado era uma chatice. Basicamente tudo se reduzia a uma questão de memorização. Detestava os deveres de casa e todo processo de aprendizado. Mesmo assim tentava fazer tudo da melhor maneira possível segundo minhas capacidades. Aceitava o jogo de castigos ou recompensas. Nestes anos de ensino fundamental as manhãs na  escola era apenas o pior momento do meu dia. A parte boa que me entusiasmava um pouco era aprender  a ler minhas  HQs sem a ajuda da minha mãe. Acho que tal objetivo me ajudou um pouco a aprender a ler e escrever.

INFÂNCIA E IMAGINAÇÃO

Quando se é criança e não temos ainda um ego formado, a imaginação é experimentada  como uma experiencia concreta e criativa. Você não se pergunta pela realidade, pois tal conceito ainda é muito plastico. Você aprende a preenche-la  com conteúdos e referencias fantásticas que transbordam o ordinário. Nisso se resumia para mim o exercício de cada brincadeira ou a experiencia e afetos que me invadiam através das imagens de  TV. Tudo era  um intenso exercício de imaginação. O mundo real não era suficientemente real. A fantasia era seu recheio, sua melhor parte. Não se tratava nesta epoca de uma forma de evasão, mas de uma codificação própria da realidade da qual apenas as crianças são capazes.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

MITIFICAÇÃO DA INFANCIA E CONSERVADORISMO: AS ARMADILHAS DA MEMÓRIA

O discurso conservador fundado em uma leitura comparativa entre a infância contemporânea , formatada pelas tecnologias digitais, e a infância supostamente mais lúdica e simples das gerações das ultimas décadas do século passado, absolutamente não me seduz. Caso pode-se escolher optaria sem melindrar pela infância dos dias  de hoje em lugar da minha. O simples fato de crescer na era da internet cria as atuais gerações possibilidades de acesso a conteúdos e informações com as quais se quer poderíamos sonhar em minha época, nem mesmo nas mais ousadas projeções de um futuro de pleno  desenvolvimento tecnológico, tão agosto das utopias futuristas em voga no ultimo século, concebia-se tamanhos recursos e artifícios ao experiência do lúdico como hoje em dia.

Não creio que a vida simples de antigamente e seu conservadorismo estreito em termos de educação familiar apresente vantagens frente à franca liberdade dos dias atuais e artifícios tecnológicos de lazer. Pelo contrário. Os ritmos mais lentos e a precariedade de informações, além do maior controle social dos pais sobre o cotidiano infantil nunca foi garantida para a formação de adultos saudáveis e de construção de uma sociedade mais funcional. Apenas éramos educados para reeditar as mesmas personas de nossos antepassados e reproduzir valores ancestrais de natureza patriarcal. O desenvolvimento e liberdade do individuo ficavam em segundo plano diante das idealizações coletivas. Assim, a infância subordinava-se aos imperativos do mundo adulto sem gozar de qualquer autonomia, apesar da ruptura geracional produzida pela contra cultura dos anos 50 e 60 em todo o mundo ocidental.

De certa maneira a cultura dos  anos setenta  introjeta este conflito entre o velho e o novo no campo dos valores produzindo uma estranha síntese que define  uma especificidade epocal que se reflete no tipo de infância que então começava a se fazer possível por força da reformatação midiática do lúdico que  combinava um discurso moral conservador com a estética e sensibilidade contestadora da contra cultura da década anterior.

Assim, em termos de moda, linguagem de propaganda e cultura pop, os anos setenta foram ambiguamente psicodélicos. Personagens como o Peninha e seu alter ego, o Morcego Vermelho, da Disney, ou o Brasinha (Hot Stuff, the Little Devil) da Harvey Comics, introduziam este legado cultural  dos conturbados anos 60 ao senso comum dos anos 70 sem qualquer contradição ou conflito.Coisa que hoje em dia, surpreendentemente, poderia fomentar polemicas ideológicas que não ocorreram nos anos onde imperava ainda o binário politico reducionista dos tempos de corrida armamentista e guerra fria.  



 

BRINQUEDOS E IMAGINÁRIO INFANTIL

Nos anos setenta consolidou-se definitivamente uma indústria da infância personificada pela produção de brinquedos a partir de um imaginário massificado que estabelecia novas sensibilidades infantis de inspiração midiática. Creio que minha geração foi a primeira a experimentar de forma franca este fenômeno. E não vejo nada de negativo nisso. Creio que este novo imaginário da infância e do lúdico formatado pelos HQs representou a construção de um ethos infantil que via no ethos do super herói um modelo de desenvolvimento individual, contribuindo assim para o desenvolvimento da personalidade. Evidentemente afirmo isso tendo por referencia o meu próprio exemplo. Não tenho aqui a pretensão de uma defesa de tese.

Bem me lembro quando ganhei um kit composto de uma capa e mascara do Batman. A identificação com a personagem através da fantasia me garantiu mais do que boas horas de diversão, mas um pouco de estimulo ao desenvolvimento e consolidação do meu próprio eu.

Ao mesmo tempo, imaginário infantil estabelecia uma distancia entre a realidade adulta e infantil, permitindo a criança certa autonomia relativa frente a autoridade dos país, uma vez que em seus devaneios lúdicos estabelecia um território que era inacessível aos adultos.  


As brincadeiras infantis que relato aqui fogem a dinâmica clássica dos brinquedos artesanais de madeira das décadas anteriores, muitas vezes construídos pelos próprios pais da criança ou outro adulto próximo ou dos jogos transmitidos de uma geração para outra, como o jogo de amarelinha.  Trata-se nos casos relatados de um lúdico que substitui a repetição e a regra pela invenção, pelo improviso. 

SUPER HERÓIS E BRINQUEDOS DE AÇÃO

A construção do lúdico na primeira idade da vida esta condicionada aos recursos destinados dentro da linguagem de cada época ao estimulo das fantasias infantis. Nos anos setenta os brinquedos de super heróis, bem como a difusão dos quadrinhos da Marvel e da DC no Brasil, edificaram nas crianças um imaginário ético baseada nas imagens dos super heróis . Uma coleção de bonecos não articulados da Guliver foi um dos brinquedos industriais que me levaram a complementar a leitura de HQs com uma experiência mais subjetiva do universo dos super heróis. Além destes pequenos bonecos haviam as coleções de motos e carros de heróis. Tais brinquedos me fascinavam e consolidavam o universo dos quadrinhos como uma espécie de apêndice ideal da realidade.


Não posso me esquecer de quando ganhei dos meus pais de aniversário um batmóvel inspirado na famosa serie de TV dos anos 60, na época ainda exibida regularmente. Foi um dos meus mais preciosos brinquedos, um verdadeiro sonho realizado.


A GUERRA DAS TAMPINHAS DISNEY

No final dos anos 70 eu e minha irmã colecionamos as tampinhas que vinham nos refrigerantes Coca - Cola e Fanta com os desenhos dos personagens Disney. Haviam também cartelas  encartadas como  brinde nos gibis. Quem quisesse podia colar suas preciosas tampinhas e brincar de Bincola. Mas eu e minha irmã tivemos uma ideia melhor. Tal como a Turma da Girafa, as tampinhas eram utilizadas por nós para encenação de um pequeno teatrinho. Ao contrário da turma da girafa este era belicoso e se resumia a guerras entre as tampinhas personalizadas e tampinhas não personalizadas. Quando uma tampinha batia na outra e a  colocava com o golpe com a face emborcada isso significava a morte do adversário.




Minha tampinha favorita era  Alice no pais das maravilhas. Ela era como uma espécie de rainha das tampinhas personalizadas, que contava entre  suas fileiras com tampinhas ocasionalmente traidoras personificadas pelos vilões da Disney como, por exemplo, o Mancha Negra. A brincadeira das tampinhas também durou anos e era uma das mais divertidas que tínhamos.

A TURMA DA GIRAFA

Não sei em que momento eu e minha irmã tivemos a ideia de “dar vida” aos nossos brinquedos construindo a fantasia de que todos eram personagens de uma comunidade imaginaria semelhante à sociedade humana. Assim, surgiu a “Turma da Girafa”.

Era uma espécie de teatrinho onde todos os dias eu e minha irmã simulávamos uma história diferente. Assim, a girava, que era um brinquedo meu, protagonizava a história ao lado do Sr. Coelho, um boneco de um coelho de terno e gravata que pertencia a minha irmã. Ambos tinham dois cachorros  como filhos e, em torno destes personagens centrais e de acordo com os brinquedos que íamos ganhando, a Turma da Girafa ia crescendo e as histórias se tornando mais complexas. Um dos personagens mais curiosos era um boneco do superman que, pelo simples fato de utilizar a cueca por cima das calças, ganhou uma personalidade gay.

Encenamos ao longo de vários anos as aventuras desta turma. Não produzíamos qualquer roteiro ou definíamos temas ocasionais. Tudo era feito a base do mais completo improviso.



LIBERDADE INFANTIL

A melhores horas da minha infância foram correndo livre no quintal da casa dos meus avós e no jardim da casa dos meus pais. Havia nestes espaços naturais algum irracional gosto de liberdade que eu saboreava como ninguém em minha ingenuidade e imaginação infantil. Ali vivia as melhores brincadeiras e sabia  mais sobre os prazeres da vida do que qualquer outro garoto.

Definitivamente, é preciso ser criança  para ser autentico. Apenas durante a infância gozamos de tempo suficiente para nós mesmos. Nem mesmo as obrigações escolares conseguiam mudar isso.


Nunca soube responder aos adultos a famigerada pergunta sobre o que queria ser quando crescer. Hoje sei que a melhor coisa que poderia ter me acontecido era não ter crescido, ter ficado perdido em algum limbo temporal sem futuros. 

O SIGNIFICADO DA VIDA ESCOLAR

Logo no ensino fundamental, a descoberta da matemática, através da famigerada tabuada que nos obrigavam a decorar, aflorou minha aversão por números e operações algébricas. A educação formal não me entusiasmava , mas consegui facilmente  o status de aluno mediano e funcional.


É engraçado como as crianças em nossa sociedade, ainda nos dias de hoje, são mandadas a escola sem a mínima noção do que representa a educação formal ou a relevância de certas atividades e conteúdos para sua vida. Normalmente percebemos um abismo entre a vida formal representada pela escola e a vida real com a família. Tudo que a escola nos ensinava era o significado amargo da palavra obrigação.

COTIDIANO ESCOLAR

Na rotina escolar, como todo bom aluno,  apreciava apenas a hora do recreio e o lanche na cantina da escola quando não levava merendeira e, obviamente a hora da saída. Até onde me lembro não fiz nenhuma amizade durante o ensino fundamental, mas me relacionava bem com os colegas de classe.

A escola era de franca orientação conservadora. Toda manhã, antes do inicio das aulas, éramos dispostos em colunas no pátio para cantar o hino nacional e rezar. Ser obrigado a vestir uniforme para frequentar as aulas transformava a condição de estudante em uma obrigação sofrida. Quando na escola meu único pensamento era voltar para casa  e poder brincar e ver televisão. A única atividade interessante era colorir alguns desenhos com temáticas e relativas a datas festivas e cívicas.

Era costume naquela época encapar os livros didáticos com plásticos estampados e uma etiqueta  com a  identificação do aluno e a série letiva. Tal cuidado era apreciado pelos professores e interpretado como um indício de capricho e organização. Para nós alunos o que realmente importava era a mochila. De modo bem discreto uma boa mochila garantia um certo status e alguma subjetividade em contraste com a impessoalidade do uso obrigatório do  uniforme.


Considerando que a escola foi o primeiro espaço de convívio social e instituição pública que frequentei, posso dizer que muito precocemente revelei certa aversão aos intercâmbios societários.  Normalmente era minha tia quem me buscava na escola. Passava as tardes na casa dos meus avós. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A ESCOLA: A PRIMEIRA RUPTURA

Não me lembro exatamente  quando comecei a cursar educação formal.  Mas, definitivamente, esta deve ter sido a primeira mudança significativa em meu mundo vivido até então. Como é comum a qualquer criança, acho que apresentei certa resistência a ideia de ser alfabetizado em um lugar estranho a minha casa.  Mesmo que antes disso minha avó tenha se incumbido de me apresentar algumas competências da vida da sociedade, se assim posso dizer. . Talvez tenha sido no mesmo período em que ela  começou a tentar me tirar o delicioso habito de  comer com as mãos . De inicio detestei o uso de talheres que me impedem de bem misturar a comida.

Apesar do humilde salário de professora primaria, minha mãe optou por me matricular em uma escola particular. Talvez, justamente por ser professora da rede pública tenha  desenvolvido certo ceticismo quanto a qualidade da educação proporcionada pelo Estado e via no ensino privado a promessa de uma educação que pudesse garantir um futuro mais promissor.

Lembro-me um pouco das aulas de alfabetização. Minha primeira professora era uma jovem chamada Celina. Eu era do tipo de aluno tímido, bem comportado e visivelmente amedrontado com o mundo exterior. Não demorei para  cair nas graças dela e me converter em um de seus alunos prediletos. Minha mãe sempre me ajudava com os deveres de casa.

Achava estudar desagradável e inútil como toda criança da minha idade. Ficava ansioso para terminar as obrigações e poder me entregar as horas de ócio e brincadeiras. A disciplina da escola me desagradava e não fazia amizades fácil.  Tudo me parecia hostil. Mas apesar disso fui me adaptando a  vida escolar sem grandes traumas ou dramas.


A CASA DOS MEUS PAIS

A casa dos meus pais era composta por dois quartos, sala, cozinha, varanda e uma copa. Não era muito grande, mas possuía um bom quintal decorado por um vultoso jardim. Gostava de inventar brincadeiras com minha irmã em meio as folhagens que em nosso imaginário infantil podia ser comparado a uma selva.  Quando não estávamos ali, víamos televisão. A vida era demasiadamente simples e alternava o brincar, o comer e o dormir.

Quando em casa minha mãe realizava as tarefas domesticas sempre cantando. Tinha uma voz potente e dramática e um repertório de clássicos populares da primeira metade do século. Não me ocorre lembrar no momento qualquer música especifica. Mas era uma experiência melancólica escuta-la cantando durante o entardecer...

Desde pequeno eu revelei uma atração imensa pela televisão, que na época ainda não era um eletrodoméstico tão popular como hoje. Inicialmente pedia para ver na TV do vizinho, através da cerca,  o programa de auditório de um apresentador chamado Chacrinha, que tinha grande audiência. Diante do meu interesse minha mãe comprou em pouco tempo nossa própria televisão. Eu deveria ter uns três ou quatro anos e quando tive contato com o aparelho de TV tão de perto me senti intimidado. Demorei um pouco para me acostumar com a novidade.



O UNIVERSO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Não sei precisar quando comecei a me interessar por histórias em quadrinhos. Mas acredito que foi antes mesmo de aprender a ler. Talvez como estratégia da minha mãe para me incentivar a leitura. Na época  as publicações da DC Comics e da Marvel eram reproduzidas aqui pela Editora Brasil America-EBAL.  Personagens como Batman, Superman, Shazam Tarzan, Liga da Justiça, Mandrake, zorro e Fantasma, dentre outros, passaram a habitar minha imaginação e a ocupar boa parte do meu tempo. Serviam de fonte também para os meus desenhos e para a confecção de minhas próprias historias  de super heróis . Posso dizer que, nos meus primeiros anos, o mundo das HQs se converteu em uma espécie de universo paralelo que eu frequentava mais do que minha própria vida.

Não tinha, afinal, convívio significativo com outras crianças. Não brincava na rua por decisão da minha mãe. Permanecia restrito ao espaço doméstico, o que não era absolutamente nenhum problema para mim.  Só precisava mesmo de quadrinhos e TV para alimentar minha subjetividade infantil que se revelava acentuadamente  introspectiva e faminta de fantasia.  De certa forma, muito precocemente, me fechei em um mundo de representações mitológicas universais personificadas por este universo que seria decisivo para minha formação pessoal.



AS HISTORIAS DA MINHA AVÓ

Minha avó era uma grande contadora de histórias. Minha infância foi marcada por suas ingênuas e imaginativas narrativas que sempre recorriam a imagens de nosso imaginário cotidiano. No quintal de sua casa, por varias vezes, fomos surpreendidos por gambas. Era um de meus grandes medos e, justamente por isso, protagonistas frequentes de suas histórias. O mesmo pode ser dito de personagens como o velho do saco, cães e gatos.

Não me lembro de nenhuma destas historias, mas considerando a importância que tinha para  mim, ouso dizer que minha avó ajudou a despertar em mim o gosto pelo universo fantástico. Mas isso é só uma hipótese.


Mas eu também gostava de inventar minhas próprias historias. Passava horas sentado no quintal desenhando historias em quadrinhos na terra. Desenhava um quadro e depois o apagava para desdobra-lo em um outro  sequencial. Posteriormente, não sei se induzido ou espontaneamente, substitui o chão por papel. 

OS ANOS 1970

Nasci nos anos setenta do ultimo século. Creio que tal referência é fundamental para qualquer avaliação de mim mesmo, pois foi nesta década que cresci, em sua atmosfera, para ser mais específico. Assim, minhas vivencias e formação  estão condicionadas a experiência dos anos setenta e seus diálogos e distanciamentos da década anterior. Minha sensibilidade foi moldada pelos produtos e condições culturais deste período específico. Musicas, programas de TV, hábitos, comidas, brinquedos, roupas, mídia  e todos os objetos de cultura então em circulação, formataram minha experiência de mundo.


Quando me lembro dos meus primeiros anos, as senhas para acesso das memorias e lembranças pessoais são imagens de tv ou musicas que escutava no radio. É engraçado como o pessoal e o privado ganham contornos fortes  através do impessoal das experiências coletivas da vida cultural. Somos o que consumimos, a época que nos consomem.

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MEDO

A capacidade de uma criança entender o mundo em que vive é muito menos complexa do que  a de um adulto. Nos primeiros oito anos da minha existência a imaginação desempenhou uma função bastante importante em meu relacionamento com a realidade. O mais dramático exemplo disso são os pesadelos que tanto me assombravam  com frequência. Sonhava com seres fantásticos que invariavelmente se dedicavam a promoção do meu extermínio. Lembro-me de um pesadelo em especial que na ocasião me deixou uma impressão intensa ao despertar. Nele eu era asfixiado por um velho magro e enrugado com vasta cabeleira branca e  crespa. Cheguei a agarra-la tentando me desvencilhar e quando acordei guardava vivamente a sensação desagradável.

Em outra ocasião, sonhei que estava caindo de uma grande altura em um interminável abismo quando fui aparado por uma estatua de madeira gigantesca de cristo. Naquela época  os símbolos religiosos me causavam certa estranheza, pareciam-me exóticos, mas eu ainda não era capaz de formular  a não crença frente aos imperativos de uma educação bastante convencional. Já em outra ocasião acordei com a impressão de que olhos me observavam na cama  do teto de telhas do quarto. Lembro-me de que tal visão me pareceu inequivocamente realista. Mas por alguma razão nunca compartilhei este tipo de impressão com ninguém a época.


Outra fonte de medo era a escuridão. Eu tinha uma verdadeira fobia do escuro. Meus pais precisavam esperar que eu adormecesse para apagar a luz e, caso despertasse no meio da noite no escuro, entrava em pânico. Gostava por isso de cobrir a cabeça com a coberta como se aquilo me protegesse de qualquer eventual ataque. Também tinha dificuldades para entrar em um cômodo onde as luzes não estivessem acesas. Os lugares a noite realmente me assustavam. Temia que das sombras emergisse qualquer tipo indefinido de perigo. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ALGUMAS PECULIARIDADES

Com base nos relatos de meus familiares, devo admitir que não fui um infante dos mais agradáveis. Minha mãe teve um parto difícil. Demorei horas para nascer. Se a primeira coisa que aprendemos ao nascer é respirar por conta própria e a chorar, admito que me dediquei com afinco a esta segunda habilidade ao longo dos meus primeiros anos. Fui uma criança manhosa. Mais do que o normal e tolerável.  Dizem que também demorei para aprender a andar e a falar. Além disso, recusei o leite da minha mãe e acabei tendo uma mãe de leite branca que , no mesmo período havia gerado a mais velha de suas três filhas. Em outras palavras, tenho uma irmã de leite com a qual, entretanto, nunca tive muito contato. Tal peculiaridade caiu no esquecimento e nunca inspirou qualquer tipo de aproximação.


Quando minha irmã nasceu, a ideia de ter uma segunda criança na casa para dividir as atenções e os cuidados claramente não me agradou e a hostilizei do modo inocente e sem formalidades típico de qualquer infante que vê seu reino ameaçado. Mas logo superei isso e minha irmã , como não poderia deixar de ser, se converteu na única companhia que dispunha para brincar.

SOBRE MEUS AVÓS MATERNOS

Meu avô materno era pedreiro de profissão e construiu a casa em que morava em uma tira de terreno comprada na periferia da cidade depois que deixou a área rural. Minha mãe, meu tio e minha tia, embora crianças, foram seus únicos ajudantes. Mas não sei maiores detalhes sobre a construção da casa.  Na fachada da construção consta até hoje uma pequena placa com o nome que escolheu para batizar sua nova residência: Vila Mafalda. Trata-se de uma homenagem a minha bisavó.

Praticamente nada sei sobre meus bisavós. Meu avô  foi criado na roça pela minha bisavó e jamais conheceu o pai. Até onde sei era filho único. Não frequentou escola regular. Muito porcamente conseguia ler e escrever. Além disso era dono de uma personalidade forte e viril. Temido na vizinhança pela sua voz potente e o habito de não levar desaforo para casa, habituando-se  a desafiar qualquer um que o contrariasse  com a foice e o facão que guardava em casa. Sempre ficava nas preliminares ameaças graças as intervenções desesperadas da minha avó para conte-lo.

Os primeiros anos  de uma criança são definidos pelo ambiente e pelos adultos com os quais convive  dada sua absoluta dependência de cuidados. O adulto do seu convívio definem os limites do mundo com o qual ela aprende a lidar.

Minha mãe era professora primária e meu pai policial militar. Fui filho de funcionários públicos que levavam uma vida modesta, mas nunca passei qualquer tipo de necessidade. Meus pais trabalhavam fora e , eu e minha irmã, que tem apenas um ano a menos que eu, passávamos os dias de semana na casa dos meus avós maternos. No inicio da noite éramos resgatados por nossos pais e caminhávamos até em casa. Era uma boa distancia. Cerca de um pouco mais de uma hora de caminhada. Apenas nos dias chuvosos utilizávamos os serviços de algum taxi que eventualmente encontrássemos pelo caminho.

Minha avó materna, pelos mimos e atenção, logo se tornou uma referencia afetiva para mim. Era uma senhora  de voz mansa e portadora de uma personalidade singularmente serena e afetuosa.  É bem verdade que não me lembro dela  hoje em dia com alguma nitidez .  Por ocasião de seu falecimento, em 1979,  eu contava apenas oito anos.

Minha tia morava com meus avós e era a segunda referencia afetiva desta minha segunda casa. Meu avô nesta época  trabalhava durante o dia inteiro em uma usina de açúcar da região. Chegava do trabalho no fim do dia  mais ou menos na mesma hora em que retornávamos  para casa.

Quanto aos meus avós paternos, não cheguei a conhece-los. Faleceram antes de causas naturais. Embora, pelo que dizem não cultivassem laços de fraternidade e amizade, eram vizinhos de muro. Atribui-se a algum tipo de enfermidade mental deste meu avô paterno o relacionamento conflituoso que passou a ter com meu avô materno.

A casa dos meus avós ficava em uma tira de terra que desembocava em uma lagoa. A chamada lagoa do Vigário. Tinha este nome por conta da lenda de um padre que teria morrido afogado. Seu fantasma, segundo os rumores, fora por diversas ocasiões avistado caminhando sobre suas águas. O terreno era coberto por arvores frutíferas.


PRIMEIROS BRINQUEDOS

Uma segunda lembrança que tenho é a do habito de brincar com um triciclo de madeira no qual apoiava para me deslocar e ensaiar meus primeiros passos.  Este certamente foi um dos meus primeiros brinquedos. Caso não esteja enganado foi construído pelo meu avô materno que me tinha em alta conta por ter sido seu primeiro neto. Um segundo brinquedo do qual vivamente me recordo é uma bola estampada. Esta foi um presente da minha avó materna em um dos meus primeiros aniversários.

Consta, entretanto, que meu primeiro brinquedo foi um pequeno cachorro de plástico batizado como miurinha e dado pela minha mãe; não me recordo em qual ocasião. Gostava de mastiga-lo. Naquela época meus dentes ainda estavam a nascer.


MINHA PRIMEIRA LEMBRANÇA

Nasci em uma cidade pequena de interior de província de um país de lugar nenhum no dia 14 de outubro de 1971, por volta das 13 horas e 30 minutos. Não possuo, obviamente, qualquer memória deste acontecimento. Não posso revelar detalhes como, por exemplo se era uma tarde de sol  ou de chuva. Mas foi nesta data que nasci.

A lembrança mais antiga que possuo é de estar sozinho  no quintal da casa dos meus avós maternos brincando com uma bexiga. Creio que tinha em torno de cinco anos. Talvez menos. Apenas sei o sentimento de perda que me invadiu quando aquela bexiga azul escapou-me de repente das mãos e ganhou o céu de mesma cor até desaparecer nele.


Tal experiência produziu em mim uma forte impressão, uma sensação de perda e melancolia da qual até hoje me lembro. É claro que com tal idade não me identificava ainda com meu eu  e os objetos eram parte da experiência de mim mesmo. Talvez isso explique um pouco porque tão corriqueiro fato me impressionou tanto. A imagem do contraste entre o azul do balão e o azul do céu cobriu de numem aquele momento aparentemente tão banal.