A capacidade de uma criança
entender o mundo em que vive é muito menos complexa do que a de um adulto. Nos primeiros oito anos da
minha existência a imaginação desempenhou uma função bastante importante em meu
relacionamento com a realidade. O mais dramático exemplo disso são os pesadelos
que tanto me assombravam com frequência.
Sonhava com seres fantásticos que invariavelmente se dedicavam a promoção do
meu extermínio. Lembro-me de um pesadelo em especial que na ocasião me deixou
uma impressão intensa ao despertar. Nele eu era asfixiado por um velho magro e enrugado
com vasta cabeleira branca e crespa.
Cheguei a agarra-la tentando me desvencilhar e quando acordei guardava
vivamente a sensação desagradável.
Em outra ocasião, sonhei que
estava caindo de uma grande altura em um interminável abismo quando fui aparado
por uma estatua de madeira gigantesca de cristo. Naquela época os símbolos religiosos me causavam certa
estranheza, pareciam-me exóticos, mas eu ainda não era capaz de formular a não crença frente aos imperativos de uma
educação bastante convencional. Já em outra ocasião acordei com a impressão de
que olhos me observavam na cama do teto
de telhas do quarto. Lembro-me de que tal visão me pareceu inequivocamente realista.
Mas por alguma razão nunca compartilhei este tipo de impressão com ninguém a época.
Outra fonte de medo era a
escuridão. Eu tinha uma verdadeira fobia do escuro. Meus pais precisavam
esperar que eu adormecesse para apagar a luz e, caso despertasse no meio da
noite no escuro, entrava em pânico. Gostava por isso de cobrir a cabeça com a
coberta como se aquilo me protegesse de qualquer eventual ataque. Também tinha
dificuldades para entrar em um cômodo onde as luzes não estivessem acesas. Os
lugares a noite realmente me assustavam. Temia que das sombras emergisse
qualquer tipo indefinido de perigo.
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