quinta-feira, 24 de novembro de 2016

CONSIDERAÇÕES SOBRE O MEDO

A capacidade de uma criança entender o mundo em que vive é muito menos complexa do que  a de um adulto. Nos primeiros oito anos da minha existência a imaginação desempenhou uma função bastante importante em meu relacionamento com a realidade. O mais dramático exemplo disso são os pesadelos que tanto me assombravam  com frequência. Sonhava com seres fantásticos que invariavelmente se dedicavam a promoção do meu extermínio. Lembro-me de um pesadelo em especial que na ocasião me deixou uma impressão intensa ao despertar. Nele eu era asfixiado por um velho magro e enrugado com vasta cabeleira branca e  crespa. Cheguei a agarra-la tentando me desvencilhar e quando acordei guardava vivamente a sensação desagradável.

Em outra ocasião, sonhei que estava caindo de uma grande altura em um interminável abismo quando fui aparado por uma estatua de madeira gigantesca de cristo. Naquela época  os símbolos religiosos me causavam certa estranheza, pareciam-me exóticos, mas eu ainda não era capaz de formular  a não crença frente aos imperativos de uma educação bastante convencional. Já em outra ocasião acordei com a impressão de que olhos me observavam na cama  do teto de telhas do quarto. Lembro-me de que tal visão me pareceu inequivocamente realista. Mas por alguma razão nunca compartilhei este tipo de impressão com ninguém a época.


Outra fonte de medo era a escuridão. Eu tinha uma verdadeira fobia do escuro. Meus pais precisavam esperar que eu adormecesse para apagar a luz e, caso despertasse no meio da noite no escuro, entrava em pânico. Gostava por isso de cobrir a cabeça com a coberta como se aquilo me protegesse de qualquer eventual ataque. Também tinha dificuldades para entrar em um cômodo onde as luzes não estivessem acesas. Os lugares a noite realmente me assustavam. Temia que das sombras emergisse qualquer tipo indefinido de perigo. 

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