sexta-feira, 25 de novembro de 2016

MITIFICAÇÃO DA INFANCIA E CONSERVADORISMO: AS ARMADILHAS DA MEMÓRIA

O discurso conservador fundado em uma leitura comparativa entre a infância contemporânea , formatada pelas tecnologias digitais, e a infância supostamente mais lúdica e simples das gerações das ultimas décadas do século passado, absolutamente não me seduz. Caso pode-se escolher optaria sem melindrar pela infância dos dias  de hoje em lugar da minha. O simples fato de crescer na era da internet cria as atuais gerações possibilidades de acesso a conteúdos e informações com as quais se quer poderíamos sonhar em minha época, nem mesmo nas mais ousadas projeções de um futuro de pleno  desenvolvimento tecnológico, tão agosto das utopias futuristas em voga no ultimo século, concebia-se tamanhos recursos e artifícios ao experiência do lúdico como hoje em dia.

Não creio que a vida simples de antigamente e seu conservadorismo estreito em termos de educação familiar apresente vantagens frente à franca liberdade dos dias atuais e artifícios tecnológicos de lazer. Pelo contrário. Os ritmos mais lentos e a precariedade de informações, além do maior controle social dos pais sobre o cotidiano infantil nunca foi garantida para a formação de adultos saudáveis e de construção de uma sociedade mais funcional. Apenas éramos educados para reeditar as mesmas personas de nossos antepassados e reproduzir valores ancestrais de natureza patriarcal. O desenvolvimento e liberdade do individuo ficavam em segundo plano diante das idealizações coletivas. Assim, a infância subordinava-se aos imperativos do mundo adulto sem gozar de qualquer autonomia, apesar da ruptura geracional produzida pela contra cultura dos anos 50 e 60 em todo o mundo ocidental.

De certa maneira a cultura dos  anos setenta  introjeta este conflito entre o velho e o novo no campo dos valores produzindo uma estranha síntese que define  uma especificidade epocal que se reflete no tipo de infância que então começava a se fazer possível por força da reformatação midiática do lúdico que  combinava um discurso moral conservador com a estética e sensibilidade contestadora da contra cultura da década anterior.

Assim, em termos de moda, linguagem de propaganda e cultura pop, os anos setenta foram ambiguamente psicodélicos. Personagens como o Peninha e seu alter ego, o Morcego Vermelho, da Disney, ou o Brasinha (Hot Stuff, the Little Devil) da Harvey Comics, introduziam este legado cultural  dos conturbados anos 60 ao senso comum dos anos 70 sem qualquer contradição ou conflito.Coisa que hoje em dia, surpreendentemente, poderia fomentar polemicas ideológicas que não ocorreram nos anos onde imperava ainda o binário politico reducionista dos tempos de corrida armamentista e guerra fria.  



 

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