O discurso conservador fundado em
uma leitura comparativa entre a infância contemporânea , formatada pelas tecnologias
digitais, e a infância supostamente mais lúdica e simples das gerações das
ultimas décadas do século passado, absolutamente não me seduz. Caso pode-se escolher
optaria sem melindrar pela infância dos dias
de hoje em lugar da minha. O simples fato de crescer na era da internet
cria as atuais gerações possibilidades de acesso a conteúdos e informações com
as quais se quer poderíamos sonhar em minha época, nem mesmo nas mais ousadas
projeções de um futuro de pleno desenvolvimento tecnológico, tão agosto das
utopias futuristas em voga no ultimo século, concebia-se tamanhos recursos e artifícios
ao experiência do lúdico como hoje em dia.
Não creio que a vida simples de
antigamente e seu conservadorismo estreito em termos de educação familiar
apresente vantagens frente à franca liberdade dos dias atuais e artifícios tecnológicos
de lazer. Pelo contrário. Os ritmos mais lentos e a precariedade de
informações, além do maior controle social dos pais sobre o cotidiano infantil
nunca foi garantida para a formação de adultos saudáveis e de construção de uma
sociedade mais funcional. Apenas éramos educados para reeditar as mesmas
personas de nossos antepassados e reproduzir valores ancestrais de natureza patriarcal.
O desenvolvimento e liberdade do individuo ficavam em segundo plano diante das
idealizações coletivas. Assim, a infância subordinava-se aos imperativos do
mundo adulto sem gozar de qualquer autonomia, apesar da ruptura geracional
produzida pela contra cultura dos anos 50 e 60 em todo o mundo ocidental.
De certa maneira a cultura dos anos setenta introjeta este conflito entre o velho e o novo
no campo dos valores produzindo uma estranha síntese que define uma especificidade epocal que se reflete no
tipo de infância que então começava a se fazer possível por força da reformatação
midiática do lúdico que combinava um
discurso moral conservador com a estética e sensibilidade contestadora da
contra cultura da década anterior.
Assim, em termos de moda, linguagem
de propaganda e cultura pop, os anos setenta foram ambiguamente psicodélicos.
Personagens como o Peninha e seu alter ego, o Morcego Vermelho, da Disney, ou o
Brasinha (Hot Stuff, the Little Devil) da Harvey Comics,
introduziam este legado cultural dos
conturbados anos 60 ao senso comum dos anos 70 sem qualquer contradição ou conflito.Coisa
que hoje em dia, surpreendentemente, poderia fomentar polemicas ideológicas que
não ocorreram nos anos onde imperava ainda o binário politico reducionista dos
tempos de corrida armamentista e guerra fria.


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