domingo, 27 de novembro de 2016

INFÂNCIA E DOMINIO DA NATUREZA

As tardes que passava com minha irmã na casa dos meus avós depois da escola, tal como me lembro hoje, eram magicas. O longo quintal possuía várias arvores frutíferas . Destacavam-se duas gigantescas mangueiras, cada uma de um tipo de manga diferente. Passei muitas tardes deitado sobre elas  colhendo mangas com uma vara de bambu ou simplesmente esperando que as mais maduras caíssem naturalmente com o vento. Existiam também pequenas laranjeiras nas quais eu e minha irmã gostávamos de ficar pendurados. Mas nunca fui muito de subir em arvores devido a  minha  fobia de altura.

O que chamava mais atenção era a lagoa na qual o quintal terminava Quando criança minha mãe havia quase morrido afogada em suas águas durante uma pescaria. Desde então passou a ter medo de mar. Não gostava nem mesmo de ir a praia. Nunca tive qualquer problema deste tipo. Na verdade, se quer aprendi a nadar. Mas quando criança também cheguei a pescar na chamada lagoa do vigário.

Ao entardecer era comum  escutar o estridente canto das cigarras preenchendo o crepúsculo de melancolia. Apesar do medo destes insetos, aprendi a prende-los em caixas de fósforos para acionar seu som quando bem entendesse. Não m,e importava o fato de que , segundo os adultos, as cigarras cantassem até explodir. 

Era mais complicado com os marimbondos que viviam voando pelo quintal. Tive muitos problemas com eles.  Vira e mexe acabava vitima dos seus ferrões. Como evitar se estavam em toda parte? Minha vingança era mata-los a chineladas ou derrubar suas casas no telhado ou nas arvores. Os adultos usavam fogo para isso. Imprudentemente eu recorria a pedradas e  quando a casa caia ao chão, corria desesperadamente para o mais longe possível. 

A praga das formigas era outro problema na casa dos meus avós. Lembro-me de ter afogado certa vez um formigueiro enorme. Era um habito comum naqueles dias afogar formigas. Algumas picavam. As que comiam as plantas eram as mais detestadas pelos meus avós. No inicio da noite, com uma vela meu avô seguia ao rastro das famigeradas saúvas para localizar o formigueiro e depositar veneno..

A natureza era viva e intensa no quintal dos meus avós  e , como uma boa criança, eu encontrava tempo para interagir com tudo.  Muitas vezes sozinho e outras na companhia da minha irmã. Gostava de matar minhocas e gongolos ,  Era divertido queima-los vivos. Obviamente, sem o conhecimento dos adultos que evidentemente não aprovavam brincadeiras que envolviam fogo.

Mas nada se comparava em proporção ao extermínio de libérulas ( papa fumos, como os chamava). As caldas e as asas ricamente coloridas enchiam os olhos e por isso  adquiri o habito de colecionar seus cadáveres em latas  . Minha avé tentava desencorajar a prática  alertando que se continuasse com aquilo, depois da minha morte, iria acabar no inferno das libérulas . Mas esta ameaça nunca surtiu qualquer efeito.

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