quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A NOVIDADE DA TV EM CORES

Nos anos setenta e oitenta a televisão ditava tendências; sensibilidades e até mesmo o ritmo dos dias e da vida eram influenciados por sua programação. A hora das refeições, por exemplo, era combinada com determinados programas de  tv. O mesmo acontecia com a moda, gírias e pequenos hábitos de consumo. 

No inicio dos anos 80, aliais, a tecnologia dos aparelhos mais modernos para época começou a se popularizar e a presença dos aparelhos de  tv em cores começou a ser lugar comum mesmo nas residencias mais humildes.

Embora  presentes no mercado desde o inicio dos anos 70 o consumo destes aparelhos era restrito a classe média e foi durante algum tempo sinônimo de status social. Naquela época aparelhos eletrônicos eram tratados por muitos como um patrimônio. Só soube o que era uma tv em cores nos anos 80.


Lembro-me que no inicio estranhei um pouco ver as series de tv com as quais estava tão familiarizado em preto e branco de repente com outra vida  em cores vivas. Obviamente não foi muito difícil me habitual a boa nova.  Mas estranhamente achei as cores “artificiais” em um primeiro momento. Cheguei mesmo a pensar que elas representavam uma distorção da linguagem da televisão. De fato, até então, este era para mim um diferencial entre a Tv e o Cinema, ao qual já havia ido algumas poucas vezes. 

CARTAS E SONHOS

Foi ao longo do ensino médio que comecei a escrever missivas para donos de zines, bandas, simplesmente, pessoas que compartilhavam o mesmo gosto musical  que eu.  Todos os dias aguardava ansioso  a visita dos correios e a novidade de alguma cartinha nova. Nunca conheci pessoalmente qualquer um dos meus correspondentes, mas virtualmente eles faziam parte do meu cotidiano.


Mantive o habito de cultivar correspondências por alguns bons anos. Era uma forma de perceber que o mundo era maior do que as fronteiras do meu viver pequeno de cidade do interior. Durante a adolescência cultivei ardentemente o sonho de sair de casa e descobrir o mundo, lugares e coisas  novas.  Tudo me parecia pequeno e provinciano a minha volta. A verdade é que nunca estive satisfeito com minha própria vida.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

DILEMAS DO ENSINO MÉDIO

Durante os  anos de ensino médio não era ainda muito claro para mim o que faria da vida. Ter uma profissão era apenas uma necessidade pragmática e eu não tendia a qualquer vocação. O curso técnico, bem ou mal, me empurrava em determinada direção. Mas eu não conseguia me imaginar exercendo o que aprendia. Basicamente, eu contava apenas com a possibilidade de  um diploma e depois tentar alguma faculdade.

A rotina de escola técnica era divertida e tinha especial entrosamento com meus colegas de sala. Fora isso eu começava a ser considerado uma figura exótica. Na verdade, contaminado por fantasias utópicas inspiradas  por interpretações muito pessoais da contra cultura dos anos 60, comecei a vislumbrar estratégias para “mudar o mundo”. Cheguei a reunir um pequeno grupo de alunos para promoção de alguns debates sobre o sentido da vida. Hoje acho tal iniciativa ridícula e não sei como consegui convencer alguém a participar desta patética experiência. Mas não foram mais do que duas ou três reuniões. Fora isso, comecei a escrever sistematicamente poesia e gastava boa parte do meu tempo com isso. Fui um adolescente introspectivo e com tendências a crises existenciais.


Uma preocupação mais pragmática quanto ao futuro só se colocou quando terminei o ensino médio e tive que fazer um estágio articulado pela própria escola através de alguns convênios com empresas locais. Acabei optando por estagiar no local mais distante de casa. Escolhi uma empresa pública  na paradisíaca região de Búzios. Era  a oportunidade de pela primeira vez sair de casa. Nascido em uma cidade pequena, nutria a ilusão tipicamente provinciana de que além dos muros de casa existia um mundo maravilhoso a ser descoberto. Por outro lado, sabia que uma educação profissionalizante não  era absolutamente o que faria de mim alguém na vida.

INSIGNIFICÂNCIA

Lembrar minha existência ao longo das últimas décadas e tentar produzir um balanço provisório da minha curta presença no mundo, causa certa melancolia. A condição humana é insignificante e banal. Irrelevante do ponto de vista da natureza. Não há nada de especial em meu acontecer no mundo e o valor que dou as pessoas e experiências vividas é definido pela irracionalidade do afeto envolvido na afirmação de tudo aquilo que  intimamente me definiu o mundo e a vida. Em poucas palavras, minha existência é tão irrelevante quanto qualquer outra e a singularidade do meu estar aqui agora não quer dizer absolutamente nada. Sei que minha biografia interessa apenas a mim mesmo e, por mais que eu tente, nunca conseguirei compartilhar com alguém a experiência concreta de ser eu mesmo. Alais, mesmo se isso fosse possível, não tornaria minha existência mais interessante.


DESCOBRINDO O HEAVY METAL

Não sei precisar em que momento meu  fascínio pelo rock me conduziu ao heavy metal que naquele momento vivia um momento de franca ascensão. Certamente fui influenciado pelo meu amigo mais próximo na escola técnica: O Adriano. Ele foi o primeiro a frequentar minha casa, superando o velho abismo que para mim existia  entre vida social e domestica. Escutávamos musica em fitas K7 e vinis por horas falando sobre os mais diversos assuntos. Por intermédio dele conheci  bandas como Slayer, Exodus, Metalica, Taurus e Dorsal Atlantica. Desde o primeiro momento  Slayer se tornou minha banda preferida.

Evidentemente minha mãe não gostou muito quando comecei a usar camisas pretas  e bottons   de bandas. Ela também não apreciava aquela  musica “esquisita” e sombria que fazia questão de escutar bem alto pelo simples prazer de incomodar os vizinhos.

Na adolescência vesti  uma persona excêntrica e fora dos padrões. Ouve uma época, por exemplo,  em que deixei as unhas da mão crescerem e usava um anel diferente em cada dedo. Intuitivamente eu me identificava com a contra cultura dos anos 60.


Mas como bom adolescente eu estava longe de ser muito coerente. Sentia uma nostalgia irracional de épocas não vividas que me fora despertada por filmes ambientados  no  século XIX ou nas primeira décadas do século XX. Gostava das paisagens, das roupas e, especialmente, dos interiores. Admito que em dada ocasião ate mesmo cogitei a possibilidade de andar de terno. Coisa que repudiaria mais tarde. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

ADOLESCÊNCIA NOS ANOS 80

A transição do ensino fundamental para o ensino médio foi um momento de definições. Como era comum na cidade em que morava, optei  por um curso técnico em uma escola pública que então era referencia local.  Para tanto cursei nos ultimo ano de ensino fundamental paralelamente um curso pré técnico destinado a preparação para o  exame de admissão em um dos cursos de formação oferecidos.  Acabei aprovado para o curso técnico de estradas e rodagens.

O ambiente escolar era totalmente diferente do anterior. Dos amigos que fiz na escola anterior, apesar da proximidade e camaradagem diária, perdi contato. Mas não foi difícil reinventar em muito pouco tempo meu relacionamento social através dos novos colegas de turma.

Na escola técnica participei do coral e da banda de fanfarra. Eram espaços de socialização onde acabei sendo levado por colegas mais próximos.

Corriam os anos de 1985 ou 1986 quando fui impactado pela descoberta do rock and roll. Tudo para mim começou quando encomendei em um loja de discos local a gravação de uma coletânea dos Beatles. Eu já conhecia da televisão seus longas para o cinema. Mas a descoberta ou envolvimento com sua musica abriu  um novo campo de experiências para mim onde o rock levou a musica, que sempre me acompanhava como pano de fundo do cotidiano, através, principalmente, do radio,  a uma forma de identidade.

Creio que nestes anos eu começava a me definir no mundo. Também  foi nesta época que comecei a me interessar por politica. No início desenvolvi uma simpatia natural pelas ideias anarquistas e li alguma coisa sobre o assunto enquanto ia aprofundando minha relação com o rock. Estava dando meus  primeiros passos em direção a rebeldia como ethos adolescente.


O ENVELHECIMENTO DE TUDO E A FICÇÃO DA MEMÓRIA

Atualmente as coisas envelhecem tão rapidamente que não temos tempo para nos acostumar com elas. Nada é durável, de longo prazo. Tudo desaparece cedo demais. Habitamos uma cultura nômade onde o passado imediato não sustenta o instante de agora. O tempo presente sobrevive de atualizações constantes de um passado indeterminado que não nos nutre identidades, mas estabelece deslocamentos.

É tempo de desreinzamentos, do ontem como ruína e poeira que se acumulam sob os nossos  pés em movimento no solo incerto do  momento presente. Vivemos a deriva. Não sei que sentido tem hoje qualquer sentimento de nostalgia já que o passado não nos formata mais o presente através da estabilidade cultural das velhas tradições e identidades.

Lembrar é um modo de evasão ou fuga da fugacidade do agora. Não há mais tempo histórico, linear ou acumulo de experiências. Apenas um estar à deriva em meio ao passar frenético das coisas. A memoria nos lança na contramão dos acontecimentos e do envelhecimento incessante como um inútil exercício poético, um gesto desesperado de autoafirmação em em meio aos silêncios e vazios que o devir. cronológico nos impõe.


Escrever biografias se tornou uma nova modalidade de romance, um gênero literário onde a ficção faz do eu um objeto de imaginação e narrativa.

VESTÍGIOS ICONOGRÁFICOS IV

Meu avô tinha uma personalidade forte. Partriacal e autoritário, não seria alguém com quem hoje me relacionaria sem conflitos. Mas convivi mais intensamente com ele na velhice, quando a idade já o havia dobrado e o convertido em um senhor simpático e meio abobalhado. Depois da morte da minha avó, a dele nos anos 90 foi a segunda grande perda afetiva que vivi. Aqui estou em seu colo no quintal da sua casa. Ele ainda era bastante moço na ocasião. A foto deve datar de 1972 ou 1973.


PRÉ ADOLESCÊNCIA NO INICIO DOS ANOS 80




Graças a localização da nova escola, na área mais central da cidade, tive a oportunidade de conhecer melhor a cidade em que morava o que, de certa maneira, ampliou  minha percepção da realidade ou do mundo, deslocando o espaço privado e domestico do centro de minhas vivencias.

Depois do expediente frequentemente caminhava junto com alguns colegas de turma até o centro da cidade. Era comum visitar lojas ou simplesmente andar pelas ruas. Pessoalmente, tinha por referencia a livraria do estudante por conta dos gibis. Aliais, hoje em dia, uma coisa que tenho dificuldades para entender, é como não descobri naquela época qualquer outro garoto da minha idade com quem compartilhar o interesse. Eu era um leitor solitário. Estava bem assim. O que não diminui o estranheza que me provoca hoje a ausência de interlocutores.

Seja como for, o meu relacionamento com meu pares na escola era tranquilo. Me sentia adaptado e integrado ao ambiente escolar e ia descobrindo aos poucos o mundo e as pessoas. Só não posso deixar de observar que, independente disso, me sentia introspectivo e centrado em meu mundo particular de fantasias.


Aliais, não sei precisar em que momento, nestes primeiros  anos da década de 80, ultrapassei a infância e mergulhei na pré adolescência. A recusa da religião foi um sintoma deste amadurecimento. Mas não foi o único. Não sei precisar exatamente quando deixei de brincar como uma criança. Falo das tampinhas e da turma da Girafa ou dos bonecos de aventura. Não posso precisar quando sofri o desencanto ou minha imaginação recuou frente uma consciência mais concreta da realidade e uma orientação mais pragmática em relação ao real. Seja como for, no início dos anos oitenta eu já não me sentia mais o mesmo.  

A FRAGILIDADE DO PASSADO E A FOME DE MEMÓRIAS

Somos na urgência do agora. Quando através da memoria nos confrontamos com nosso passado, com este acumulo de instantes ausentes que agora se apresentam  como fantasmas ou meras abstrações minemônicas, sofremos naturalmente  algum tipo de desconforto.

 Se o passado formata o presente, a percepção do passar do tempo, por sua vez, é perturbadora quando nos damos conta das tantas coisas, circunstâncias e pessoas irremediavelmente perdidas.

Tudo passa e deixa rastros quase imperceptíveis e é como se não existissem a não ser como memoria rasa e vaga que não lhes confere qualquer tipo de realidade. Lembrar não passa da constatação de uma ausência, de uma não presença ou contemporaneidade.

O passado não se perpetua como narrativa e nem mesmo como lembrança. Ele é um não lugar, um vazio que não para de crescer. Escrever memorias ou biografias é lidar com este silêncio, faze-lo falar, de alguma maneira, em função da nossa necessidade de estabelecer referencias e representar nossa própria existência como processo orientado para uma atualização permanente de nós mesmos.


Precisamos de identidade e digerir nossa experiência de mundo no acumulo caótico de vivencias que definem a vida. Mas quanto mais nos ocupamos do nosso passado, ampliamos a consciência da perenidade e fragilidade de tudo que vivemos. Mesmo assim, temos fome de memorias. Mesmo que elas não ofereçam qualquer substancia a experiência concreta do simples agora.

VESTIGIOS ICONOGRÁFICOS III





Fotos do casamento dos meus pais.
Não sei a memória que eles  cultivam deste evento distante e tão decisivo para suas vidas. 
Apenas sei que as fotografias não dizem o fato, recortam o acontecimento através do olhar frio da câmera, que mais ilude do que registra... 
Pelo que sei da minha mãe os primeiros anos de casamento foram marcados por dificuldades e desencantos. Nada foi como um como um conto de fadas, contrariando suas espectativas.
  

VESTÍGIOS ICONOGRÁFICOS II






A CRIANÇA 

A criança que fui um dia se perdeu no tempo.
Nela não reconheço qualquer origem
ou pré versão de mim mesmo.
Não sou aquele infante 
que me ignora na fotografia.
Não sou se quer sua memória.
Afinal,
quantos de mim já existiram?
Quantos um dia deixei de ser
neste devir incerto  que me faz  sempre provisório?

VESTÍGIOS ICONOGRÁFICOS I








Fotos dos meus pais em frente de casa. Não sei precisar  o ano. Certamente depois que nasci, o que me faz situa-las entre 1972 ou 1973. 

O que mais espanta em fotos antigas é sua falta de comunicação com o tempo presente.  Os relâmpagos de passado ditos pelas fotografias parecem mais imagens oníricas do que fragmentos de uma realidade um dia concretamente vivida.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

QUANDO ME TORNEI ATEU

Embora a mudança de escola para terminar o ensino fundamental durante os anos oitenta tenha representado uma mudança qualitativa em meu mundo vivido, eu ainda era apenas uma criança. Conhecia melhor a cidade em que morava, tinha minha turma da escola e minhas paixões platônicas como todo pré adolescente. Mas minhas preocupações cotidianas ainda eram claramente infantis e o mundo da escola e da casa não se comunicavam. Constituíam, ao contrário dos vasos não comunicantes. Entre eles minha introspecção se forjava, minha subjetividade aflorava através de uma sensibilidade formatada por idealizações e fantasias provenientes dos modelos e valores que havia construído através do universo das HQs. Isso me isolava um pouco. Mas não era um incomodo. 

Os anos oitenta apresentavam uma estética e sensibilidade bem diferente da década anterior. Pode-se dizer que eles formataram aquilo que hoje em dia conhecemos como cultura pop. Mas esta é uma longa discussão que prefiro não enfrentar aqui.

Em um primeiro momento a relação com o mundo dos quadrinhos se fortaleceu através das visitas praticamente diárias a livraria do estudante para adquiri gibis. Era um destino certo depois das aulas e a caminho de casa. Fora isso, comecei a apresentar um certo incomodo ou resistência a educação religiosa que me era imposta. Não em função de qualquer coisa que tenha ouvido na escola. Era uma inquietação difusa e intuitiva que me fazia, por exemplo, não ficar muito a vontade para acompanhar minha mãe a missa dominical. 

Nunca fui do tipo religioso. Nunca fui de pensar muito sobre religiosidade. Naquela época a crença em papai noel era mais importante para mim do que qualquer especulação sobre jesus de Nazaré ou a objetividade de um deus único. Estes assuntos não me interessavam. Mas estavam começando a me incomodar.  O que me lembro, muito vagamente, é que era do tipo que fazia perguntas incomuns durante as aulas de catecismo e, para algumas indagações, recebia a pior de todas as respostas que se pode dar a um pré adolescente inquieto: "Mistérios". 

Isto resultou em minha conversão ao ateísmo quando tinha  em torno dos quinze anos. Cheguei a tal condição pelo simples fato de que o deus do qual tanto falavam  não se manifestava, não respondia a qualquer chamado. Em um primeiro momento guardei o fato comigo. Mas ele teria consequências ao longo da minha adolescência.
   

MATEMATICA DO TEMPO VIVIDO

O momento é a soma de instantes e a soma dos momentos define o tempo presente. A multiplicação dos momentos pelos instantes tem por resultado o passado. Este por sua vez, quando subtraído do tempo presente, tem por produto o tempo vivido. Não é uma matemática simples. Mas todos os cálculos possíveis são igual a zero. Há algo de irracional na dança destes números imaginários.  

A verdade é que uma existência não cabe em matemáticas, ao contrário do que dizem as estatísticas. Ela não passa de um jogo estranho entre lembrança e esquecimento... Uma valoração da singularidade do banal contra os lugares comuns da subjetividade.


DESCONTINUIDADE E MEMÓRIA

Aos olhos de uma criança o mundo é definido pelo primado dos cinco sentidos. Crianças são criaturas hedonistas por natureza. Suas experiencias são intensas e definidas por cheiros, sabores, tato, sons... O próprio corpo é diferente. Talvez mais livre, mais intenso e cheio de energia. Por tudo isso tenho dificuldades em lembrar da criança que fui um dia. Nada  naquilo que sou hoje apresenta vestígios dela, Nem mesmo o meu "eu".

Assim, acho que existe uma profunda descontinuidade entre a infância, a adolescência e a fase adulta que nenhuma memória é capaz de dar conta. Reconheço que muita coisa permanece perdida em minhas linhas autobiográficas.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

ENTRE A CRIANÇA E O ADULTO

Tive o privilegio de não passar por necessidades durante a infância. Também não vivi qualquer experiência traumática. Hoje sei a importância disto. Mas quando criança meus corriqueiros problemas cotidianos como não conseguir mais um brinquedo ou gibi novo, ou cumprir as metas da vida escolar ganhavam proporções absurdas e se convertiam em um verdadeiro drama existencial.

O mundo infantil não é o mesmo habitado pelos adultos, mesmo que isso possa parecer objetivamente um contra censo. A realidade é definida pelo que somos capazes de perceber e não pelo que objetivamente é. Por isso existem diversos mundos dependendo de como apreendemos  as coisas.

A criança que fui um dia jamais compreenderia o adulto que me tornei. Se quer o acreditaria possível. Não posso culpa-la por isso. Hoje em dia ainda tenho dificuldades para entender ou aceitar certos protocolos da vida adulta.


Fui uma criança feliz, mesmo sem ter plena consciência disso.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

ESCOLA E CRESCIMENTO PESSOAL

Minha primeira escola era administrada por uma velha e conservadora  diretora que também era dona da instituição  impondo uma disciplina militar ao cotidiano da instituição. Já a segunda escola na qual terminei o ensino fundamental, possuía uma diretoria compartilhada por três irmãs idosas cujo conservadorismo não interferia no cotidiano do estabelecimento. Confesso que esta segunda escola me agradava mais. Não era obrigado a cantar o hino nacional todos os dias ou musiquinhas religiosas na ultima aula do dia para agradecer a rotina de aprendizado.

Os alunos mais adiantados me despertavam certa admiração e inveja. Pareciam gozar de mais liberdade e personificavam aquele ideal rebelde de juventude com o qual apenas estava começando a ter algum contato. Como a maioria das  crianças cultivava certa ansiedade pelos estágios seguintes da vida: a adolescência e a fase adulta. Pensava, por exemplo, na possibilidade de poder assistir no cinema todos os filmes que bem entendesse sem sofrer as interdições impostas aos infantes. Raramente ia ao cinema nos anos oitenta. Mas as poucas vezes que fui foram momentos mágicos.  Considerando que até o inicio dos anos oitenta a TV em cores ainda  era um artigo de luxo, a experiência de ver filmes na telona  impactava os telespectadores de um modo difícil de imaginar hoje em dia.


A escola nova representou para mim um certo amadurecimento. Na medida em que começava a interagir de modo mais pessoal com meus pares, reaprendia o mundo e transcendia as representações ingênuas formatadas pelo cotidiano familiar.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

CASTIGOS

Durante a infância tinha uma relação afetuosa com meus pais. Mas  isso não me isenta de avaliar que na época em que cresci a relação entre pais e filhos era definida por uma dose excessiva de autoritarismo. A coerção e o adestramento eram  ainda naturalizadas premissas da educação familiar. Não havia qualquer pudor em recorrer com frequência a pedagogia do castigo físico.

Muitas vezes eu considerava a punição injusta e, adotando a postura desafiadora que me era possível então, reagia com os xingamentos que conhecia a cada chinelada. Isso servia para aumentar o castigo. Mas creio que também ajudou a forjar meu senso de individualidade.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

INTROSPECÇÃO

Não tinha contato com meus colegas de sala fora da escola.  Minha vida privada era como um outro mundo totalmente desconectado daquele pequeno universo social que frequentava.  A forma como me comportava entre meus pares era bem diferente daquela que me portava em casa. Até mesmo mudava um pouco o tom e o timbre de voz. Sem perceber vivia um personagem que era demasiadamente eu, ou pelo menos algo próximo a qualquer estereotipo que gostaria de mostrar para as pessoas da escola.


Por mais que me sentisse parte da “turma” e gostasse disso, nunca saí do meu intimo mundo de fantasia.  Eu era de verdade nas historias que escrevia e através dos gibis q              eu lia. Não possuía ninguém com quem falar sobre isso. Mas  interlocutores não me faziam falta. Achava mesmo que os outros viviam em um mundo diferente do meu. Acho que, embora tenha sido uma criança bem adaptada, ao mesmo tempo, era solitária e fechada. Nunca tive qualquer problema com isso.  

TV E MEMORIA

Quem como eu nasceu no inicio dos anos 70 do século XX pode definir-se, em termos culturais,  como um filho da televisão. Possuímos indiscutivelmente uma memória midiática ou televisiva. Filmes, séries de TV e desenhos animados povoam nossas lembranças e dizem o passado com a mesma intensidade que qualquer acontecimento concreto.  Certos itens da programação da TV nos despertaram tamanha identificação que se converteram em identidade, em uma vivencia subjetiva estruturadora de sensibilidades e rotinas constituindo, assim, parcela significativa do nosso passado lembrado.  Não surpreende, portanto, que tenham se convertido em  parte de nossa experiência mais pessoal. 

A TV diz de modo realmente singular o mundo no qual crescemos e nossas sensibilidades infantis ampliando a memória para além da experiência concreta do individuo. Um determinado filme pode nos dizer uma época da vida e determinada vivencia passional. Ao mesmo tempo ele não passa de uma peça de entretenimento de massa. Mas nem por isso se torna menos autentico enquanto  veículo de experimentações privadas e objeto de apropriação  afetiva.

ECOS DA INFÂNCIA

Mais do que um simples inventário de lembranças, recordar a infância é construir uma fábula pessoal, um mito de origem onde nos contemplamos como o inteiramente outro de nós mesmos.

A criança que fomos costuma ser física e mentalmente superior ao adulto que nos tornamos, pois ainda guarda a mente aberta e não reduz a realidade a logica estreita dos conceitos. Pessoalmente, acho que a infância nunca termina  completamente, sempre deixa vestígios  e questões que nos acompanham por toda existência. Mas sobre isso um psicanalista pode discorrer com muita mais propriedade do que eu. Limito-me a afirmar, muito livremente, que adultos não passam de crianças defeituosas.



domingo, 11 de dezembro de 2016

BREVE DEFINIÇÃO DE INFÂNCIA

Minha infância foi um estado onírico e concreto de realidade onde meu ego, ainda frágil, confundia-se com o mundo. Era indefinida a fronteira entre fantasia e realidade.Eu ainda não conhecia as interdições, contradições e constrangimento da vida adulta. Sabia a liberdade e era fácil provar mas pequenas coisas o gosto doce da felicidade. Todas as coisas diziam o encantamento do mundo. Nunca mais existir de novo com a mesma intensidade que nos anos de infância.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

UFOLOGIA NA ESCOLA


Quanto aos conteúdos escolares, passei a ter sérios problemas com ciências exatas. A matemática era minha grande adversária e matéria certa de recuperação. Ironicamente, também tinha problemas com educação artística, ou o que era chamado como tal, pois reunia noções básicas e inúteis de desenho técnico. Aprendi um pouco sobre as cores e a desenhar e identificar figuras geométricas usando instrumentos como régua e compasso. Amava desenhar livremente minhas HQs, mas aquele tipo de desenho técnico me tirava do sério.

Em contra partida, gostava de literatura, português, história e ciências. Com a professora de ciências desenvolvi, especialmente, uma relação de comedida amizade que muito lembrava aquela que mantive com minha alfabetizadora na escola antiga.

Além do interesse por guerras, outro tema que me fascinou nos anos 80 foi as especulações sobre vida extra terrestre. Passei a pesquisar ufologia em revistas especializadas e acumulei um conhecimento ingênuo sobre o assunto. Acho que foi minha professora de ciências que , quando cursava a sétima serie, me deu a oportunidade de realizar uma palestra sobre o assunto para minha própria turma. Não tenho lembranças muito precisas sobre este episódio. Mas, retrospectivamente falando,  acho incomum e descabido que este tema tenha sido então abordado na escola. Lembro que minha palestra foi seguida de um convite para um fulano que não fazia parte do quadro dos professores, brindasse minha turma com uma breve explanação  introdutória ao inusitado tema. A escola em que estudava era privada e bem conceituada na cidade, o que torna mais curioso o episodio.

Nos anos 80 a polemica sobre UFOs estava muito em voga. Talvez por conta das tensões constantes provocadas pela guerra fria e o medo concreto de  uma terceira guerra mundial.



UMA INTRODUÇÃO A "TURMA"

A partir da quinta da série do ensino fundamental na escola nova, a classe ou série escolar passou a significar uma referencia identidária cara para mim. Afinal, caso não fosse eventualmente reprovado, frequentaria a mesma “turma” até o termino do ensino fundamental na oitava série. Isso fortalecia os laços e a identidade grupal da “turma”. Evidentemente, de um ano para o outro, ocorriam algumas baixas. Mas eram mínimas e, portanto,  irrelevantes para manutenção da identidade do grupo.

Mesmo me sentindo perfeitamente parte da minha “turma”, não deixava por isso de permanecer muito centrado em meu próprio mundo particular. Assim, nunca fui do tipo muito popular, mas também não passava despercebido. Talvez por ter o nariz tão enfiado em gibis e os olhos presos a TV eu tenha me convertido desde cedo em alguém meio exótico ou destoante dos demais.

De fato, não posso negar minha evidente tendência a adoção de comportamentos exóticos. Isso sem a mínima pretensão de chamar atenção. Nestes anos, por exemplo, comecei a escrever histórias em pequenas prosas. Era uma tarefa constante. Por isso adquiri o costume de carregar sempre uma prancheta de acrílico com alguns papeis. Á quase todo momento estava rabiscando alguma coisa. Não demorou muito e passei a ser conhecido pela companhia da minha inseparável prancheta.


AS histórias que escrevia naquela época não eram grande coisa. Não passavam de narrativas inspiradas em HQs e, por isso, contavam sempre com personagens fantásticos e situações insólitas. Em casa me dedicava mais a  desenhar  histórias em quadrinhos. Assim, apesar da novidade de vivenciar pela primeira vez  algum tipo de socialização, meu mundo interior, se assim se pode dizer permanecia no centro das minha experiência de mundo. 

A GUERRA NOS ANOS OITENTA

Os anos 80 foram marcados por diversas guerras: Invasão soviética do Afeganistão (1979-1989), invasão de Granada pelos Estados Unidos (1983), Guerra Irã Iraque (1980-1988), Guerra das Malvinas (1982), dentre outras. Além disso, definia o  imaginário coletivo a ameaça de uma terceira guerra mundial e um hecatombe nuclear provocado pelas tensões sempre renovadas da  Guerra Fria.

Era natural, portanto, que a guerra me fascinasse neste segundo momento da minha infância e tanto me alimentasse a imaginação. Um dos  brinquedos mais populares da década eram pequenas coleções de miniaturas dos  principais exércitos da segunda guerra. Também adorava filmes de guerra.

Posso dizer que nos primeiros anos desta década fiquei um pouco obcecado pelo tema. O que de modo algum afetava meu comportamento cotidiano. Nunca fui uma criança violenta. Mas o assunto era de fato excitante para qualquer menino da minha idade que, muito ingenuamente, vincula a imagem da guerra e suas batalhas a heroísmo e aventura. Não levava em conta o lado sombrio de uma guerra, a barbárie que ela representava.


Quando se é criança não somos afetados em nossas opiniões pelos dilemas éticos e constrangimentos culturais inerentes a condição de adulto de modo muito direto. O importante aqui é reconhecer que a nova década introduziu uma paisagem existencial bem diferente daquela que caracterizara a anterior.  Mesmo sem pensar muito sobre isso, minha vida privada mudava junto com o mundo. Mesmo eu não prestando muita atenção nisso.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

NOVAS ROTINAS

Com a mudança de escola a esfera privada da vida familiar deixou de ocupar a centralidade do meu acontecer cotidiano. Comecei a frequentar o centro da cidade como intinerário diário  ampliando aos poucos as fronteiras geográficas do meu mundo vivido. Ir sozinho para escola era ao mesmo tempo conquistar certa autonomia individual, como também descobrir coisas novas. No caminho descobri uma pequeno sebo de livros, vinis e quadrinhos. A Livraria do Estudante, como era chamada. Ela me foi apresentada por um colega de escola. Era um lugar pequeno e desorganizado com um forte cheiro de coisa velha. Sempre havia algum disco de dance music  ou soul tocando, contribuindo para uma ambientação singular.

A Papelaria do Estudante logo se tornou um espaço magico para mim. Cotidianamente economizava o dinheiro da merenda para comprar gibis. Com alguns trocados conseguia sair de lá com pelo menos meia dúzia. O preço era calculado de forma bastante subjetiva pelo proprietário do lugar. Um sujeito magro e pequeno com uma voz grave e meio metálica. Graças a este estabelecimento, que era o único sebo da cidade, minha coleção de quadrinhos em muito pouco tempo ganhou corpo a partir da compra sistemática de gibis usados. Já não dependia da boa vontade dos meus pais trazerem algum em suas idas ao centro da cidade ou quando na companhia de qualquer um deles passava em frente a uma banca de revistas.


Assim, ao mesmo tempo em que começava a fazer do ambiente escolar um espaço de socialização, minha tendência a  introspecção também se consolidava na medida em que me dedicava mais aos gibis. O que pode ajudar a entender minha discrição na escola. Me relacionava bem como todo mundo, mas sem  estabelecer vínculos profundos. Geralmente fazia apenas um amigo mais próximo. 

OS ANOS 80 E MINHA SEGUNDA INFÂNCIA

Na ocasião eu ainda não tinha descoberto o rock como referencia de identidade e prazer adolescente. Mas me lembro de ter acompanhado pelos noticiários locais as noticias sobre a morte trágica de John Lennon. Não tinha, então, muita ideia de quem ele era, mas a noticia me impactou de alguma forma. O fato é, obviamente, mais significativo hoje para mim do que foi na época. A verdade é que no inicio dos anos 80 eu começava a entrar na pré  adolescência e ampliava meu campo de experiências e impressões sobre o mundo e a vida.

Na escola nova comecei a cursar a quinta série do ensino fundamental. A interação com os colegas de classe passou a ser mais intensa e efetiva. Logo percebi o profundo abismo que me separava dos meus pares. Havia até então vivido fechado quase que hermeticamente na bolha do cotidiano familiar, imerso em minhas fantasias infantis. As outras crianças sabiam mais do que eu sobre  coisas corriqueiras pertinentes  as codificações societárias. Eu, por exemplo, não tinha qualquer conhecimento sobre sexualidade e gênero enquanto meus colegas já haviam descoberto as diferenças anatômicas entre meninas e meninos e se divertiam com meu total desconhecimento sobre as gírias sexuais e palavrões.

Apesar disso, os meninos não se misturavam muito com as meninas. Brincavam separadamente durante o recreio apesar de eventuais e pontuais interações e algumas exceções.  Mesmo eu que era criado com uma irmã, não tinha qualquer empatia com o universo feminino e via as meninas como uma espécie de tabu. Quando mais tarde uma colega de turma demonstrou algum interesse por mim, demonstrei certo desconforto com o fato deixando claro publicamente minha contrariedade. Passei a trata-la com antipatia. O fato é que neste inicio dos anos oitenta, a escola começou a se apresentar para mim como um espaço de sociabilidade contraposto a esfera privada/familiar, estabecendi novos desafios a construção de um eu no mundo.


MEUS EUS E O TEMPO

Não me reconheço na criança que fui um dia.
Sua realidade é  para mim
Como uma matéria onírica,
Quase um sonho.

O tempo  passa e eu envelheço
Ficando cada vez mais distante
Do virtual de mim mesmo.

A criança que fui um dia
jaz perdida entre todos os meus descartados outros eus.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A CASA NOVA

A casa nova precisou passar por pequenas reformas antes de se tornar habitável. Mas não nos demoramos para mudar. Meu avô, experiente pedreiro, trabalhou nas reformas. Aproveitei para ganhar alguns trocados como seu ajudante. Obviamente, empregaria todo dinheiro na compra de gibis.

A casa nova trouxe e também coincidiu com novas rotinas. Mais ou menos neste período  troquei de escola. Passei a cursar o segundo ciclo do ensino fundamental em um colégio no centro da cidade. Até então  só frequentava o centro na companhia dos meus pais quando iam fazer compras ou qualquer outra coisa. Apenas circulava no bairro em que morava e, assim mesmo, só ia sozinho até a esquina  para realizar pequenas compras na venda.

Também não tinha mais minha avó e, morando agora perto e já mais crescido, não era mais tão costumeiro passar a tarde na casa do meu avô, onde minha tia passou a acumula as funções da minha avó como dona de casa.  Além disso, depois de um tempo ela passou também a ajudar minha mãe nas tarefas de casa, já que agora moravam a mais ou menos quinze minutos de distancia.


Agora eu e minha irmã tínhamos quartos individuais. Mas, comparada com a casa velha, a casa nova não tinha o mesmo aconchego. Mas tinha um quintal suficientemente grande para comportar um jardim. Na parte dos fundos, havia plantações rasteiras de pés de abobora e mandioca. Eram infestadas de ratos e foram destruídas por questões de higiene.  Aos poucos meus pais foram ajeitando a residência. Para mim a principal novidade da casa nova foi ganhar um cachorro vira lata branco com manchas amarelas que foi batizado como Ramon.

LEMBRANÇAS DA "CASA VELHA"

A casa onde cresci era antes de tudo um território afetivo. Basta dizer que a primeira coisa que meus pais fizeram quando decidiram casar foi comprar uma casa à prestação. No inicio dos anos oitenta ampliaram a construção construindo dois quartos nos fundos. Assim, eu e minha irmã finalmente teríamos  quartos individualizados. O que para qualquer criança é considerado um grande avanço.

Entretanto, mal concluído o anexo, surgiu à oportunidade de vender a casa para comprar outra próxima a residência dos meus avós e, portanto, menos periférica em relação ao centro da cidade.

No início resisti a ideia de mudança. Gostava muito de onde morava e não conseguia me imaginar em outro lugar. Mas acabei me rendendo a novidade da casa nova e vivendo bem a transição. Mesmo assim levei algum tempo sofrendo as saudades da então apelidada “casa velha”.

Não era só a perda da casa, mas todas as experiências e rotinas que ela proporcionava, sua “ambiência”. Morar em qualquer lugar é confundir-se com ele, ser de algum modo parte da paisagem. Gostava também do longo percurso diário da casa dos meus avós a casa dos meus pais. Havia, por exemplo, em certa altura do trajeto, um lugar conhecido como matinha. Era um lugar ermo com algumas poucas casas ao fundo. Tinha Inicio as margens de uma rodovia federal.  Era como um pequeno bosque. Sempre ficava imaginando como seriam as poucas pessoas que moravam por lá. Desembocava em uma área onde se situava um longo terreno ocupado por dois campos de futebol.  Quase sempre, quando voltávamos para casa, testemunhávamos por lá alguma partida entre times amadores devidamente uniformizados. Em determinadas ocasiões, também servia de lugar de pouso para caravanas de ciganos. Eles me fascinavam e alimentavam a imaginação. Ficava imaginando como seria viver como cigano. Suas roupas exóticas, e especialmente os vestidos coloridos das ciganas,  eram quase uma promessa de aventura.

Também sentiria saudades do sino do carrinho de pipoca a noite que me fazia sair correndo para o portão, dos passeios nos parques de diversão que vez ou outra acampavam em uma praça perto de casa. Adorava a roda gigante e maças do amor. Também do dono do pequeno armazém onde fazia pequenas compras domesticas para minha mãe, dos gatos que criamos naquela casa , dos pequenos pintos que trocávamos por garrafas e terminavam na panela quando viravam frangos e do querido coelho branquinho que nos serviu de mascote por longos anos.

As memórias da casa velha eram cândidas e felizes. Ainda hoje me encanta sua lembrança.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A MORTE DA MINHA AVÓ

Lembro-me de quando minha avó morreu após passar um tempo internada em um hospital. Eu e minha irmã ainda não entendíamos direito a morte e o que efetivamente estava acontecendo. Lembro-me do corpo da minha avó acomodado dentro do caixão sobre a mesa da sala de casa durante o velório. Apesar do meu medo diante daquela situação minha mãe me fez aproximar-se dela após me tomar no colo. Na ocasião cortou uma mecha de seu cabelo branco para guardar de lembrança.


Fomos poupados do enterro. Ficamos na casa vizinha onde morava um dos meus tios paternos com a família. Nas semanas que se seguiram a morte da minha avó eu e minha irmã apresentamos um comportamento mais agressivo e tenso. Sentíamos sua falta, mesmo sem entendermos direito qualquer coisa sobre luto ou o que era o morrer. Era 1979, e perda da minha avó pode ser tomado como um divisor de aguas dos meus primeiros anos. 

BALANÇO PROVISÓRIO DOS PRIMEIROS ANOS DE ESCOLA

Não tenho muito a dizer sobre os meus primeiros anos de ensino fundamental. Na época via a escola como uma obrigação abstrata que não representava nada para mim. Durante as aulas minha maior expectativa era voltar para casa.

Neste período não fiz amigos entre meus colegas de classe. Não tenho muito do que lembrar desta fase escolar. Simplesmente não dava grande importância a rotina escolar. Ela apenas atrapalhava minha rotina privada. Principalmente por conta da desagradável obrigação dos deveres de casa. Era comum a noite, após assistir TV, minha mãe cobrar as tarefas da escola e tirar eventuais duvidas. Terminada a obrigação era um grande alivio poder ir dormir. Nem me importava muito com o escuro. Dormia com a cabeça coberta pelos lençóis e cobertores.

Além disso, minha mãe me fazia participar de alguns eventos desagradáveis do calendário escolar que eu considerava desagradáveis como, por exemplo, os desfiles do dia da independência e as festas juninas. Naquela época a escola nos ensinava a obedecer e não a pensar, de modo que havia uma naturalização da coerção branda que me induzia a participação em tais eventos.

Um detalhe interessante é que minha mãe era professora primaria e eu tinha o habito de ajuda-la na impressão de provas escolares no velho mimeógrafo. Pode-se dizer, portanto,  que a  rotina escolar, de certa forma, era parte da minha vida domestica.


Um detalhe interessante é que as provas eram um momento em que os professores dialogavam com os alunos através de pequenos recadinhos avaliando a prova como um todo ou a resposta especifica a determinadas questões. Tais mensagens eram muito valorizadas. Não tenho nada de mais relevante para falar sobre as experiências do  primeiro ciclo de ensino fundamental.

PRIMEIRAS APTIDÕES IMPERTINENTES

Já em minha primeira década  de vida o universo das histórias em quadrinhos , dos desenhos  animados e dos filmes de ficção, ocuparam o centro das minhas preocupações cotidianas de primeira infância. Não tomava a fantasia como algo contrário à realidade, mas como parte essencial dela.

Também já era evidente meu gosto pela musica que muito precocemente se tornou um componente muito presente no mais simples dos fatos corriqueiros. Minha mãe, além de cantar enquanto realizava as tarefas domesticas nos finais de semana ou antes de ir trabalhar, as vezes tocava acordeon.

O mais próximo que cheguei na infância de uma educação musical foi brincando com um piano vermelho que minha irmã ganhou em algum de seus primeiros aniversários. Fora isso, um pouco mais tarde, quando minha tia frequentou aulas de violão, gostava de observa-la tocando e cantando sucessos da época. Quando possível brincava com seu instrumento. Mas não era capaz de desvendar sozinho os segredos do violão.

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Uma das coisas que mais gostava de fazer quando criança era correr. Era rápido e tinha orgulho disso, mas não tinha qualquer vocação para a prática esportiva  e detestava as aulas de educação física. Correr apenas me dava uma profunda sensação de liberdade. Isso atingiu um outro nível quando em um natal qualquer eu e minha irmã ganhamos bicicletas. Na época o presente que qualquer criança mais poderia desejar. A minha era vermelha e a dela era azul. Tinha uma predileção acentuada pela cor vermelha. Mesmo com as rodinhas adicionais ao período de aprendiz da arte das pedaladas, já me atrevia a ensaiar algumas corridas.

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O que posso concluir aqui é que tinha alguns potenciais e aptidões que nunca desenvolvi. Acho que as coisas que deixei de aprender ou fazer, todas aquelas possibilidades esboçadas e atrofiadas, me definem mais do que tudo aquilo que fiz e concretizei.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PEQUENAS SOCIABILIDADES

Em frente à casa dos meus avós havia uma linha férrea. Corria sempre para o portão quando escutava a composição carregada de cana de açúcar se aproximando. Entre as crianças da rua era um costume tentar arrancar algum pedaço de cana dos vagões em movimento, apenas por diversão. Pessoalmente, eu era medroso demais para isso. Preferia  ver o trem passar à uma distancia segura.

Alias, nos idos dos anos setenta, era habito ficar no portão apreciando as modas. Sempre aparecia algum vizinho para trocar um dedo de prosa. Encontros triviais e cotidianos eram frequentes entre vizinhos estabelecendo laços de proximidade no âmbito privado de um modo que hoje em dia já não acontecem mais. As pessoas participavam de forma mais intensa do cotidiano uma das outras.

Isso me incomodava. Na presença de pessoas estranhas perdia um pouco da espontaneidade. Quando os adultos recebiam visitas, evitava, por exemplo, me alimentar para não ter que dividir o alimento com elas. Era um capricho de criança que estava de acordo com a etiqueta da época. Era considerado deselegante ou inconveniente chegar na casa de alguém na hora do almoço ou da janta.

Quando eu e minha irmã acompanhávamos nossa mãe em visita a casa de algum parente, éramos orientados a nos manter discretos. Nada de brincar, correr ou falar alto. Coisa que ficava difícil de atender quando nos juntávamos a outras crianças. Acabávamos vitimas de castigos quando terminada a visita.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

MEMÓRIA E VIDA

As lembranças que tenho sobre minha infância são tão fragmentárias e vagas que não dão conta de uma reconstrução muito fiel das minhas rotinas, questões e vivencias daquela época. Não tenho, portanto, qualquer ilusão quanto ao resgate de um passado factual. Sei que entre a lembrança e os fatos existe um insuperável abismo.

Qualquer narrativa autobiográfica esta condicionada ao eu atual do narrador e as suas configurações existenciais. Além disso, toda lembrança equivale a alguns esquecimentos. Toda memória é seletiva. O que é o mesmo que dizer que o passado em sua objetividade nunca nos é plenamente acessível.

Lembrado, o passado não é acontecimento bruto, mas a composição de um mosaico de imagens existenciais e experiências, que revelam a percepção que temos de nós mesmos. Idealizada pela nostalgia, o passado que a lembrança nos oferece é mais afetivo do que efetivo. Isso não o torna menos confiável. Só revela que o passado é o que nos diz a cada instante  quem somos, seja de modo retraído ou transbordante, de acordo com as exigências da hora.


No momento destas linhas, por exemplo, a infância figura para mim como um referencial quase onírico a despertar um forte desejo de evasão de um presente sem atrativos.