sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

SOBRE A ESCOLA

Raramente nos damos conta que a tutela dos adultos é o que define socialmente a infância. É uma época de confinamentos e adestramentos. A escola é o pior deles. Sempre vi a escola mais como um espaço de socialização  do que de educação. Paradoxalmente ela foi também para mim um lugar de solidão e desabrigo. Paradoxalmente a escola me ensinou a me sentir desajustado ao mundo.

sábado, 24 de novembro de 2018

EXISTÊNCIA NÔMADE

Desde o dia em que saí da casa dos meus país e da cidade em que nasci, para estudar na capital, vivo sozinho e de modo provisório e precário. Mas sempre frequentou minha imaginação a fantasia da casa ideal, do meu lugar no mundo. 

Seria uma casa com quintal, varanda, paredes cheia de quadros e móveis antigos. Seria um lugar de passados, de memória. Uma casa dever ser antes de tudo um espaço de identidade e recordações, um lugar meio fora do mundo. Nunca tive o privilégio de construir uma casa. Sempre me senti nômade depois que me perdi no mundo....

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

MÚSICA E COTIDIANO

Nos anos 80 e 90 o rádio era ainda um dispositivo  consagrado majoritariamente a música popular. Discos e toca fitas também eram assessórios indispensáveis. A música nos frequentava em todo lugar e definia o ritmo da própria vida. Havia no cotidiano uma certa leveza que desapareceria progressivamente nas décadas seguintes com as mídias digitais e a internet. Ocorreu uma banalização sem procedentes da audição musical

VIDA ADULTA

Quando criança eu nutria ilusões banais sobre a vida adulta. Achava que seria um período de emancipação financeira em relação aos meus pais onde poderia viver de acordo com minhas próprias regras.

O tempo mostrou que eu estava errado. Ser adulto não passa de um desencanto em relação a existência. É estar preso à convenções e obrigações. Não ter muito tempo para si mesmo.
Tornar-se adulto é a pior coisa que nos acontece .

AMBIENTAÇÃO

Minha infância foi configurada pelo meio urbano de uma cidade pequena. Mas a origem rural da minha família deixou uma marca silvestre em minha sensibilidade. Gosto do ambiente de casas contra o regime de caixa dos apartamentos. Amo espaços abertos. Sinto falta de experimentar o céu noturno com os olhos e escutar os barulhos de uma paisagem noturna. São coisas que me fazem falta.

ENVELHECIMENTO

Envelhecer significa para mim contemplar a própria existência. Com o passar dos anos nos convertemos em testemunhos de um passado perdido.

O tempo presente é para os jovens. Socialmente nos transformamos em simulacros de nós mesmos. Tudo ganha um sabor de impessoalidade e anonimato quando o corpo já não é mais o mesmo.

sábado, 10 de novembro de 2018

MEMÓRIA DO NÃO SER

Do ponto de vista das minhas expectativas afetivas, minha vida nunca começou, nunca aconteceu como materialização dos meus sentimentos mais profundos de existência, como rito de criação de mim mesmo através da radicalidade dos atos, dá intercessão da ficção do eu e do mundo.

Toda memória da minha existência testemunha o não ser como fundamento e estrutura de tudo aquilo que me foi possível.

SOBRE NÃO SER MAIS JOVEM

Não sei dizer em qual momento exato da vida deixei de ser jovem. Não sei mesmo se quer se isso aconteceu. Juventude e velhice são mais papéis sociais do que propriamente um marco físico e temporal que nos diz o corpo. Psicológica e fisicamente temos todas as idades do pensamento e pouco importa o peso dos anos.
Mas não sou mais jovem ou meu comportamento, prioridades e afetos não são mais os mesmos de vinte anos atrás. É certo que a vida mudou mais do que eu. Mesmo assim, socialmente não sou mais jovem. Não sou visto pelos outros com os mesmos olhos.
Difícil saber exatamente quando fui requalificada socialmente.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

BATMAN


Batman habitou desde muito cedo minha imaginação infantil como personificação mais perfeita do mito do herói. Sua figura me fascinava mesmo nas primeiras histórias carregadas de irrealidade que eu lia em preto e branco.


Acho que não me dei conta da evolução da personagem ao longo dos anos até Flank Miller publicar seu Cavaleiro das Trevas consagrando o lado sombrio e atormentado como traço definidor da personalidade do herói.

Dentre todos os super heróis Batman foi o único que em sua intemporalidade cresceu e amadureceu comigo tornando-se uma variação de si mesmo ao longo do tempo.

as diversas imagens do Batman quase correspondem as minhas próprias idades. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O ATEMPORAL DA VIDA PRIVADA

O essencial da existência tem um gosto de atemporal. No meu caso está associado a vida doméstica e previsível da casa dos meus pais. É tal ambientação  elementar que configura minha sensibilidade e percepção. O vigor da juventude e o território domestico está em franca oposição à minha experiência presente e a todo desabrigo  que  passou a definir meu existir comum, meu acontecer adulto e independente.

COMER PEIXE...

Nos dias de infância na casa dos meus avós, havia algo de singular quando peixe fazia parte do cardápio. 

Gostava de observar minha avó limpando peixes. Depois ela jogava a sujeira no fundo do quintal. Era o momento predileto dos gatos de casa.

Adorava peixe frito. Mas, como toda criança, tinha problema com espinhas presas na garganta. Comia muita farinha para resolver o problema. Mas o que acho mais curioso é que as pessoas ainda comem peixe, mas passam longe de viver a mesma experiência, o mesmo sabor empregando nas coisas, que ainda era possível em minha infância.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O ENCANTAMENTO DOS PEQUENOS DETALHES


Desde os meus 18 anos a companhia do cigarro e do álcool definiram meu cotidiano modo de morrer e de viver. Meu sentimento de mundo, a administração de minhas ansiedades, somada a um temperamento melancólico e frustrações pessoais, foram compensados pela embriaguez, por uma busca pela criatividade e pela produção de mim mesmo como uma regra básica do meu dia a dia. Sempre busquei no banal, nos pequenos detalhes do meu dia a dia, um certo prazer gratuito de estar vivo. Por isso escutar musica, estar sempre com um fone de ouvido, sempre foi para mim uma necessidade vital durante as costumeiras caminhadas de fim de semana.

TRAJETÓRIA PESSOAL


Creio que fugi a todos os roteiros previsíveis da vida adulta e me acomodei em um provisório arranjo de sobrevivência. O grande problema é que ele se tornou permanente e passou a definir todo o resto da minha vida.

Aprendi a viver acampado em meu precário apartamento alugado. Consigo sobreviver de uma remuneração pífia e da falta de perspectiva profissional.  Tive o mérito de não fazer família, de não ter filhos ou buscar prestígio.

Do meu próprio jeito me considero até agora um sobrevivente dadas as insalubres rotinas existenciais que me configuram os atos e a sensibilidade.

A memória do abrigo da casa dos meus pais, da adolescência perdida, é o maior contraponto a minha contemporaneidade.   

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

SOBRE O ATEISMO

Recebi uma educação católica e durante a infância ir a missa de domingo era uma obrigação imposta por minha mãe.

Mas a ideia de deus nunca contaminou minha imaginação infantil. Quando adolescente, só contrário, o que era evidente para mim era a impossibilidade de qualquer experiência pessoal deste deus que me ensinavam como premissa de todas as coisas. Acho que foi com quinze anos que passei a me reconhecer como ateu, evoluindo em pouco tempo para um  anticlericalismo bastante raivoso.

MEMÓRIA E VIDA

Os vestígios de um evento ou de um acontecimento preservado como lembrança, são suficientes para rouba-lo do esquecimento, mas só podem faze-lo ressignifando-o ao sabor do contemporâneo. 

Há algo de virtual e de potencial no que se apresenta para nós como passado.  Há um campo de incerteza que nos define a memória como experiência do agora.

Lembrar é um inventar a si mesmo através de vestígios, de pistas, que tornam o tempo uma categoria imprecisa.

domingo, 28 de outubro de 2018

SOBRE MINHA FALTA DE AMBIÇÃO

Nunca quis ser alguém na vida. Confundir-me com uma persona, construir identidade através de uma função social, em nenhum momento me pareceu uma forma de realização pessoal.  Sempre me senti abaixo de todas as expectativas familiares. Desde muito cedo me dei conta que era um tipo incomum de fracasso exemplar e que nada mudaria isso.
  
Saber a vida a partir de minhas expectativas mais aberrantes e egoístas, ser inadequado e não adaptado,  foi meu maior  desafio em um mundo onde somos desafiados à eficiência e a distinção social.

Minha maior ocupação foi apenas a de me sentir bem, o que me fez um preguiçoso, alguém que não serve para um mundo de empreendedores existenciais.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O PASSADO COMO IDENTIDADE

Tenho mais compromisso com o passado do que com o futuro. O que eu sou é a contemporaneidade do que vivi e não a realidade do que vivo. Envelhecer é inventar passados. Quase tudo em mim é feito de alguma nostalgia. Por isso meu sentimento de mundo transborda melancolias. Sou parte de muitas coisas que não mais existem.

sábado, 20 de outubro de 2018

SOBRE O PASSAR DO TEMPO

É estranho como o tempo passa. Tudo que é jamais será novamente e o mesmo do meu eu é sempre outro.

Acho que é a memória que me inventa e não os fatos. Sou feito de ausências e nostalgias, mas nunca me lembro da primeira vez em que fiz qualquer coisa. É como se nada fosse feito através de um começo e de um fim. Talvez a vida não seja tão linear quanto pareça....

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

MEMÓRIA E GEOGRAFIA


As situações e lugares que configuram uma circunstância definem uma ambientação, uma sensibilidade própria a uma experiência vivida. A memória nos diz sua atmosfera, o sabor da vivencia.  Não nos referimos aqui ao fato como unidade cronológica de algo que aconteceu.  Cada momento possui um sabor especifico que dá cores a nossa recordação e lhe caracteriza  como experiência sensível.

Quando recordamos alguma ocasião lúdica e agradável de nossa infância somos invadidos pelo sentimento nostálgico de uma atmosfera.  Existe uma dimensão geográfica/existencial das recordações e ela é decisiva. O referencial espacial é mais decisivo na recordação do que propriamente sua definição cronológica.

Habitar a vida é mapear afetividades espaciais , condições atmosféricas.

TEMPO E BIOGRAFIA

Para mim é muito evidente a diferença entre o tempo biográfico e o tempo do mundo ou da sociedade. É no primeiro onde existo concretamente a margem dos acontecimentos coletivos. 

É o tempo qualitativo e afetivo da biografia que me define na construção social de subjetividades. É ele que me abriga e proporciona algo próximo a uma identidade sempre provisória, que me confronta com a finitude.

No plano da vida concreta, a dimensão publica e privada da existência se confundem no tempo vivido como matéria e memória.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

SOBRE A ATUALIDADE



Nasci em um mundo onde não havia internet e a tecnologia gozava de uma aura de sofisticação futurista. Era algo distante do cotidiano mais simples. As novas tecnologias digitais se quer eram sonhadas ou fantasiadas como possibilidade.

Nasci em um mundo mais simples onde o critério para circulação dos signos no ambiente cultural da sociedade ainda era a subjetividade. 

Nasci em um mundo que não existe mais. Por isso tenho certa facilidade para abstrair as circunstâncias e não fazer do tempo presente uma condição absoluta da minha sensibilidade. Aprendi que tudo muda e a durabilidade e o tempo  das coisas vividas  nunca foi tão duvidosa

domingo, 14 de outubro de 2018

BOTEQUIM

Sempre gostei de frequentar botequins.já fui freguês de muitos. Sempre bebendo sozinho e contemplando o movimento das ruas, observando outros frequentadores,  e me isolando de tudo através de um fone de ouvido. Alguns botecos foram engolidos pelo tempo e deram lugar a outra coisa. Outros sofreram reformas e perderam o charme. Os velhos botequins e seus frequentadores cativos pertencem cada vez mais ao passado. Hoje em dia o rústico e o simples são pouco apreciados.

A INFÂNCIA COMO UM ESTADO DE ESPIRITO

Nada se compara a segurança do ambiente familiar onde na infância somos tutelados pelos nossos pais e pelos parentes mais próximos. Essa é a melhor fase da vida. Não estamos suficientemente conscientes do mundo é dos seus problemas. Apesar das obrigações escolares, gozamos de tempo para dedicar a nós mesmos, para o lúdico e a mais imediata simplicidade da existência. 

Ter sido uma criança feliz me define hoje como um adulto muito mal resolvido, resistente as obrigações e rigores da maturidade. Teimo em cultivar a infância como um estado de espírito.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

SOBRE MEMÓRIA PESSOAL


Minhas lembranças invocam um passado que lhes transcende. Elas penetram o presente como matéria viva do espirito, são algo mais do que simples recordação. Talvez o tempo nem mesmo exista e todo o vivido permaneça fluindo, nos atravessando, como uma metafisica presença.

As lembranças mudam com o tempo através de diversas ressignificações e experiências. Nosso passado pessoal nunca é o mesmo. Ele nos escapa como acontecimento vivo. Nossa memória psicológica é sempre movimento e quase não se dá conta da memória do mundo.

ENTRE O PASSADO E O PRESENTE


Este profundo abismo que percebo entre o meu passado e o meu presente é fonte de angustia. Afinal, traduz um certo estado de dissociação de consciência. Sinto-me perdido entre o afeto e identidade com meus eus antigos e a necessidade de um existir para o aqui e agora que não me afeta na mesma intensidade. É como se viver fosse olhar para traz e lamentar o que se perdeu, enquanto o presente e suas urgências exigem toda a atenção possível. Mas ausências povoam minha presença.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

SAUDADES DE MIM MESMO

Sinto falta dos meus passados como abrigo existencial. Não falo de identidade com antigas idades ou com atmosferas afetivas personificada por certos lugares e pessoas. Falo de uma saudade de mim mesmo, da capacidade que eu tinha de me envolver com a vida e situações. Hoje, quase aos cinquenta anos, passei a acumular indiferença e desencantos. O mundo perdeu as cores e a vista ficou meio turva e em preto e branco.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A CRIANÇA QUE NUNCA FUI



A criança que me define o passado jaz morta.
Nunca fui aquele menino.
Mesmo que algo dele exista em mim
Como memória corporal.
Nunca habitamos o mesmo tempo,
O mesmo mundo
Ou sofremos as mesmas emoções e desejos.
Nossas vidas são diversas.
Nossos vazios comunicáveis.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

INVENTÁRIO EXISTENCIAL

A vida tem sido para mim uma sucessão de improvisos cristalizadas. Os anos passam no acúmulo de inercias e cada vez menos me reconheço em minhas rotinas. Todas elas desde sempre quase definitivamente provisórias....

O passado é para mim um arquivo aberto de coisas que quase foram, de caminhos interrompidos. Talvez eu tenha chegado a idade de inventariar todas as possibilidades perdidas. É crucial para o meu pouco futuro saber quem eu não consegui ser.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O DIA EM QUE FUI EMBORA...


Não guardo lembrança do dia em que deixei a província onde nasci para estudar na capital. Era tudo muito improvável, uma espécie de desvio do que parecia ser a coisa mais natural. Todas as dificuldades estavam postas e eu não tinha absolutamente nada planejado. Simplesmente, de repente peguei um ônibus e estava indo embora sem fazer a mínima ideia daquilo que me esperava. Assistiria a aula magna do inicio do semestre letivo da faculdade e depois  veria onde iria dormir. Este era o meu plano brilhante. Foi assim que botei o pé esquerdo no mundo. Era o ano de 1992. Mesmo sem ter bons motivos eu estava feliz...



quarta-feira, 22 de agosto de 2018

NOSTALGIA E TEMPO PRESENTE

Atribuo a demasiada importância  que as memórias de infância e de juventude possuem em nosso acervo pessoal de lembranças a um traço de nossa cultura.  Associamos a maturidade e a velhice à um período de desencanto com a vida. É quando somos escravos de obrigações, preocupações e exigências sociais,  que nos roubam a espontaneidade e o prazer de viver.  A infância e a juventude são o contrário disso. 

O passado só nos apresenta como uma espécie de idade do ouro porque o presente é para nós um tempo de carências e urgências infinitas. Já o futuro, quanto mais envelhecemos, se perde em um horizonte de incertezas.

A falta que sinto do pequeno mundo familiar e privado da juventude é para mim, antes de tudo, uma profunda recusa do tempo presente e de  suas mazelas coletivas.

O QUE SOU EU?


As tantas descontinuidades naturalmente estabelecidas ao longo da sucessão de conjunturas biográficas por mim vividas, sugerem uma multiplicidade de personas. Não me sinto único, contido em mim mesmo, através de um ego estruturado e constante, subordinado a uma espécie de desenvolvimento evolutivo. As circunstancias mudam, eu envelheço, em diversas geografias existenciais, estratégias de subjetivação e contextos relacionais.

Tenho realmente dificuldades para me auto definir ao longo do tempo, para me reconhecer em um plano pessoal onde se revelaria de modo inequívoco minha singularidade enquanto pessoa humana.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

INSIGNIFICÂNCIA VITAL

Estou preso a um determinado espaço e a um intervalo incerto de tempo. Vivendo uma época e, consequentemente, suas limitações.

Sei que não posso dar conta de qualquer experiência do mundo, pois ele não se apresenta para mim como uma totalidade.  Tudo em minha  vida é fragmentado e descontínuo no acontecer banal de algumas rotinas. 

Existo desfeito no fluxo de signos e símbolos através de um impreciso território existencial.

Minha presença entre os outros é quase invisível e tudo que tenho a dizer não passa de tagarelice.

BRINQUEDOS E IMAGINAÇÃO



Os pequenos bonecos de borracha de super heróis vendidos pela Guliver nos anos de 1970  não fariam muito sucesso entre as crianças de hoje. Atualmente a fantasia já não se conforma a um território simbólico próprio, distinto da realidade. Pelo contrário, ela se faz mais sedutora quanto mais é capaz de simular o real a ponto de converte-se em seu duplo mais que perfeito.

Os brinquedos antigos, ao contrario, exigiam uma boa carga de imaginação e fantasia. Éramos crianças prodigiosas na arte da invenção e da simulação. Agora a imaginação exige ficções hiper realistas. Nossos velhos e toscos bonecos de borracha foram substituídos por figuras de ação articuladas que, mesmo mantendo ainda algum atrativo, não rivalizam com os vídeo games que, diga-se de passagem, não param de evoluir. Gostaria de ter tido essa opção na minha época. Ser criança nestas primeiras décadas do século XXI é uma experiência realmente mais rica que pões em questão o próprio conceito de infância. Depois da internet  qualquer pirralho de dez anos tem acesso durante um único dia a um volume de informações e dados que eu certamente precisaria na minha juventude de vários anos para acumular as duras penas.

SOBRE A BANALIDADE DE NOSSAS LEMBRANÇAS


Sempre acharemos o passado mais atraente do que o presente, caso tenhamos vivido uma vida pacata e sem acidentes. Sabemos desde sempre que o olhar retrospectivo preenche os acontecimentos passados com um brilho que eles nunca tiveram.

Convertidos em memórias eles ganham outras cores, revelam outras ambientações e recortes. Justamente por que são despidos de suas urgências e imperfeições. Qualquer boa lembrança tem mais realidade do que o instante presente, pois goza de uma plenitude de sentido, de uma significação transparente, que compensa sua falta de realidade que, diga-se de passagem, é paradoxalmente uma virtude.

Confesso que cultivo muitas boas lembranças. A grande maioria remonta a infância e aos vigorosos anos da adolescência. É quando a gente inventa um jeito de saber e sentir o mundo que nos é tão próprio como uma digital.

As experiências acumuladas nas duas primeiras décadas de uma vida definem o rosto, o modo como sentimos e apreendemos as coisas a partir de determinados filtros ou conjunto de verdades/valores. Mas para mim a adesão a certo modo de ver e pensar o mundo é sempre uma forma de despersonalização, de adesão a alguma formula impessoal de ser e viver que introjetamos como um padrão.

Mas algo que precisa ser dito sobre nossas lembranças ou arquivos subjetivos é que, apesar de sua carga afetiva, elas são de modo geral banais e personificam um conteúdo genérico.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

UMA LEMBRANÇA QUALQUER

Recordações perdidas e fragmentos soltos frequentam o quarto quase vazio das memórias antigas. Entre estas lembranças existe uma, especialmente, que se destaca por sua vitalidade. Ela parece, assim, remeter a um acontecimento de ontem, mas o fato que lhe sustenta o rosto já acumula décadas de desaparecimento. Não há como explicar sua intensidade. Trata-se de um simples fragmento descontextualizado, um retalho de tempo, que não preenche dois minutos de um dia. Sua força, definitivamente, não esta na alusão a um fato, mas a uma atmosfera, a uma ambientação, que define o tempo/lugar de uma experiência.

Assim, simplesmente me lembro de estar com meus pais em casa, em qualquer dia de infância, simplesmente brincando, fazendo coisas banais. Não há qualquer significado nesta lembrança, apenas um gosto de ser nas coisas que me comove em mil intensidades de nostalgia.


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

SINGULARIDADE , SOLIDÃO E MEMÓRIA

Com o passar dos anos aprendi que minhas memórias e experiências, que o mais essencial da minha existência, não diz respeito a ninguém. Nem mesmo posso comunicar o que o mundo foi e é através dos meus olhos e pensamentos. Este sentimento de singularidade é também um saber de solidão. Mas acho que é isso que torna a vida de todos nós possível. Tudo que somos esta fadado ao desaparecimento. É com ele que lidamos durante a vida inteira.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ONDE EU NASCI



O céu de onde nasci não é como o daqui.
Parece mais vivo e o sol é mais intenso.
O próprio vento parece ter outro gosto,
Lá onde meus olhos aprenderam o mundo.

Onde nasci não é uma cidade,
Não é um país.
É apenas um canto perdido  terra
Que só eu vi .


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O PASSADO CONTRA O PRESENTE


As simples rotinas de infância e adolescência me deixaram um vazio eterno de experiências. Mas bem sei que são os arranjos da memória, o olhar retrospectivo, que fundamentam esta nostalgia quase excessiva dos meus primeiros anos.

Não cabe falar de uma felicidade perdida ou de uma idade de ouro de minha particular existência. Meu eu mais jovem jamais aprovaria esta leitura póstuma que surpreendentemente o ignora.  Bem sei que naqueles anos de vigor juvenil nada do que hoje me parece importante tinha qualquer relevância.

No fundo a idealização afetiva do passado é uma crítica do momento presente, uma forma de inconformismo existencial.


terça-feira, 7 de agosto de 2018

LEITURAS DE FORMAÇÃO III

Alguns autores ou pensadores cuja leitura me entusiasmava e inspirava quando adolescente hoje me são totalmente indiferentes.  A quase totalidade deles são marxistas ou vinculados de algum modo a tal tradição.  Hoje posso dizer que quatro autores ainda me inspiraram de modo mais contínuo e pro fundo, constituindo leituras para vida toda: Jung, Foucault, Deleuze  e, obviamente, Nietzsche. Os três primeiros se reúnem em torno deste último. Tal afinidade eletiva traduz buscas e inquietações. Angústias que acho que hão de doer a vida inteira através de minhas reflexões rotas.

PASSADO E FUTURO II

Lembrar o passado sempre me incomoda. Parece que todas as coisas vividas são um sonho sonhado em alguma noite perdida. Parece faltar realidade a tudo aquilo que agora se perpetua como precária lembrança e um dia teve o gosto da concretude da mais imediata das horas.

Tal como o passado é o futuro. Etérea abstração que foge ao tempo das sensações e dos atos. E, entretanto, comovem mais do que a própria vida. É como se faltasse verdade a esta paradoxal experiência que tomamos por realidade.

TEMPO DE AMAR



No inicio dos anos dos 2000 vivi meu único e duradouro caso de amor romântico. Eu ainda era demasiadamente jovem e inexperiente nas coisas do coração e mesmo tendo passado dos trinta anos mantinha certa ingenuidade adolescente sobre o comercio afetivo do eu e do outro.

Por um pouco mais de cinco anos me conformei a rotina de um enamorado. Depois disso, sem qualquer motivo, o encanto se quebrou. Ela era mais velha e, ao contrario de mim, tinha sua vida estruturada em laços de família. Eu ao contrário seguia errante sem saber o que esperar do futuro.

Foram anos de encantamento. Mas não duraram para sempre.


MORADA EXISTENCIAL

Morar em uma cidade diferente daquela na qual cresci foi para mim uma experiência ruim. É como exilar-se do passado, perder uma parte do mais profundo referencial de si mesmo. 

Não importa o quanto plantamos memórias onde vivemos, o lugar onde experimentamos a infância, é sempre onde nos sentimos em casa.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

HISTÓRIAS DE FADA





Lembro-me dos livros de histórias infantis dos primeiros anos de escola fundamental. Eram coloridos e preenchidos por narrativas breves e compreensíveis para quem ainda aprende a ler e apresenta um padrão cognitivo mais imagético do que verbal.

Ainda guardo profundo carinho por livros infantis. Não são apenas outro tipo de leitura onde a imaginação predomina sobre os conceitos e enunciados, são também uma modo de construção da experiência através de narrativas que inspiram afetos, sensibilidades.

Creio que os “livros de historinhas de fadas” era a única parte da primeira escola que realmente significava alguma coisa para mim em termos de aprendizado e crescimento pessoal.

Narrativas como Cachinhos Dourados e a Família Urso ou o Patinho Feio frequentaram minha imaginação de modo realmente muito criativo.
  


terça-feira, 31 de julho de 2018

SENTIMENTO DE MUNDO

Experimento um certo desconforto quando penso que daqui a cinquenta ou cem anos o mundo tal como conheço hoje não existirá mais. Muitas questões que me são caras se tornarão irrelevantes assim como a atualidade do meu modo de subjetivação. Pertencer a uma época determinada é ignorar o sem  fundo da experiência humana, é torna-se pequeno e irrelevante. Há uma ausência de substância no modo como a experiência de um ego nos estrutura, na maneira como lidamos com o tempo, como ignoramos o devir. Aprendemos a ser...mas isso nada significa na concretude de uma existência.

PASSADO E FUTURO

O passado é para mim como um sonho distante. É como se nunca tivesse sido um presente. É como se a memória acordasse qualquer fantasia dentro da irrealidade do tempo. O passado e o futuro é onde nunca sou e , no entanto, o que me define na intuição desta particular existência que me transcende e contém como devir e permanências.

INFÂNCIA E NATUREZA


Quando eu era criança era hábito na província em que nasci permitir aos pequenos, em seus primeiros anos, usar as mãos nas refeições diárias sem o constrangimento do uso dos talheres. Como a base da alimentação era o feijão com farinha combinado com arroz e carne, a comida era reduzida a uma massa nutritiva de sabor peculiar.

Não sei a razão de considerar tão significativo este rude costume. Acho que associo livremente o uso das mãos na alimentação a uma pratica de liberdade contra as convenções. Ou, talvez, simplesmente me chame atenção seu desuso e a precoce introdução dos talheres na cultura da infância nos dias de hoje.

Ser criança é uma construção social que vem mudando vertiginosamente nos últimos tempos em curto espaço de tempo. Os mais jovens são agora acostumados a lidar com um volume de imagens e informações cujo acesso era antes reservado a um adulto razoavelmente culto.

Ao mesmo tempo, a experiência dos espaços e das paisagens, do mundo natural, parece cada vez mais distante da experiência da infância em uma sociedade tecnológica e cada vez mais definida pelo virtual. As crianças já não possuem uma imaginação de jardim. Pessoalmente, minha infância foi marcada por brincadeiras em jardins. Vantagem de ter sido criado em casas e não em apartamentos.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

SOBRE NÃO TER FILHOS


Minha vida é banal como qualquer outra. Não vivi nada de extraordinário. Na verdade apenas existi como todo mundo e sofri como todos os outros as efemeridades de minha época.

Ambientado em um tempo pequeno, preso a uma família, a um emprego, vivi modestamente. Adaptei-me as circunstancias existenciais, cultivei gostos e desgostos. 

Mas, ao contrário da maioria dos meus amigos, não tive filhos. Nunca me tornei responsável por alguém. Considero este um dos meus grandes pequenos acertos. Não foi exatamente uma opção.  A não paternidade foi um desdobramento natural do meu modo de viver tão voltado para mim mesmo.  


sexta-feira, 20 de julho de 2018

TABAGISMO

Comecei a fumar com 18 anos. Era um dia banal, uma tarde de sol. Parei sozinho em um bar para beber uma cerveja antes da aula na faculdade. Pedi um cigarro para me fazer companhia. Acabei gostando da experiência intimista. 

Antes disso odiava o cheiro é a fumaça de cigarro. Meu pai era fumante. Durante a infância sempre comprava cigarros para ele. Mas nunca tive vontade de experimentar. Contrariando todas as tendências, acabei , entretanto, me tornando um fumante muito devotado ao vício.

MEMÓRIA E VIDA

A memória é sempre uma reinvenção do agora. Significamos o passado em função das fúteis urgências  do tempo presente. Afastamos o intempestivo, o incoerente, em função da necessidade constante de atualizar o sentido, de inventar identidades e sentimentos de mundo. 

No fundo somos muito ingênuos em nossa relação com o tempo e a finitude. Exigimos sempre da vida uma consistência que ela não pode nos proporcionar.

ESPIRAL DO TEMPO

Creio ser impossível organizar minhas lembranças e representar minha trajetória pessoal  a partir da constância de um ego. Acho que fui vários ao longo da existência.

Do mesmo modo, longe de um evolucionismo teleológico, minha existência é um acúmulo de rupturas, uma desconstrução e reconstrução constante de todas as coisas. O que sou hoje é a negação de meus múltiplos passados e não o resultado natural deles.

SOBRE MINHAS AMBIÇÕES

A realização pessoal e profissional, desde que superei a  adolescência, não mais se impôs para mim como uma meta ou preocupação muito séria.

Desencantado com as convenções da existência social, me coloquei o engrato desafio de uma busca introspectiva por autenticidade. Nunca soube direito o significado de tal objetivo.
Aos olhos dos outros devo ser um exemplo de fracasso. O que não me afeta. Ainda acredito que a experiência de viver plenamente escapa às convenções.

Levo uma vida materialmente humilde perto dos cinquenta anos. Mas minhas ambições  escapam a qualquer pragmatismo.
Ainda tenho esperanças de levar a mim mesmo as últimas consequências. E isso me importa mais  que qualquer ventura financeira ou prestígio social.

PERIODIZAÇÃO BIOGRÁFICA E AMBIENTAÇÃO


É curioso como cada momento da vida da gente possui um modo próprio de ambientação. Determinadas músicas, filmes, pessoas, lugares, etc. decoram um intervalo de nossas vidas estabelecendo uma espécie de textura ou rotina afetiva.

Não somos responsáveis por estas configurações. Elas apenas nos acontecem e depois se dissipam tão repentinamente quanto se estabeleceram. Mas cada momento tem suas questões, seus desafios ou enredos. Não estão diretamente associados a idade ou aos papeis e circunstâncias sociais. Mesmo quando envolvem as circunstâncias de um emprego ou uma mudança de endereço.

Para o bem e para o mal estes períodos  dão o ritmo de um devir biográfico, forjam nossa personalidade e não é fácil entender o que exatamente os formata, o que nos conduz de um momento a outro.
   

segunda-feira, 16 de julho de 2018

AMBIENTAÇÕES


Ás vezes me lembro das ambientações dos tempos de  criança. Coisa pouca como o quintal da casa dos meus avós maternos ou os jardins da casa dos meus pais. São lembranças fragmentadas que dizem lugares onde ainda me abrigo, que me servem de referência.


Claro que a rua em que cresci não é hoje a mesma rua. Faltam pessoas e configurações de  cenário apagadas pelo tempo. Não é o mesmo ambiente. Ouso mesmo dizer que tudo que estes lugares são ficou no passado. Pelo menos para mim. Mas trata-se de um passado que ninguém jamais saberá. Nem mesmo faria diferença saber. É todo um modo de vida que se perdeu e não pode ser restaurado.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A MATURIDADE COMO DESENCANTAMENTO



Quando eu tinha vinte ou trinta anos, me encantava intensamente com certos livros e filmes que hoje me parecem peças banais das artes do século XX. Não guardo mais aquele deslumbramento da descoberta que preenchia de significados e buscas estas pequenas experiências estéticas. Hoje as considero banais embora ainda me despertem profunda admiração.

Certamente, o que mudou não foi minha compreensão destas obras, mas minha capacidade de ser afetado por estas pequenas experiências  vocacionadas a realização de qualquer gozo intelectual.

Envelhecer me tornou cético e um pouco insensível. Coisa que não considero ruim. Já não sou arrebatado por qualquer coisa. Este é um defeito dos jovens. Com o peso do tempo nos ombros perdi muita daquela vaidade e audácia que me caracterizava. Deixei de sonhar outros mundos, com futuros redentores que expulsariam todas as insuficiências da minha vida cotidiana.

Filmes e livros já não me transformam em outro na vida do pensamento. Hoje sei que nenhum conhecimento ou opinião fará de mim uma pessoa melhor. Deixei definitivamente para traz meus dias de inocente romantismo. Vivi o suficiente para me tornar  um pouco de tudo aquilo que não queria ser quando jovem.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

FAMILIA E PERTENCIMENTO

Nasci em 1971 e minha avó materna morreu em 1979. Ela esteve cotidianamente presente na minha vida por apenas oito anos. Mas foi o suficiente para deixar em mim uma marca, uma influência que não cabe na memória.

Devo-lhe a escolha do meu próprio nome, o sabor da sua culinária e a imaginação de suas histórias tantas vezes recontadas. 

Lembro da minha avó como uma espécie de presença mágica que comunica uma metafísica familiar, um sentimento de pertencimento a um passado que me antecedeu e é habitado por muitos rostos e  vivências. Ousaria falar de um modo peculiar  de sentir e ser que remete a uma experiência coletiva e impessoal.

LEITURAS DE FORMAÇÃO II

Machado de Assis e sua trilogia básica ( Memórias póstumas, Quincas Borba e Ejau e Jacó) foram leituras de adolescência e não propriamente de formação.
Mas gostava da ironia e amargura dessas  narrativas. O simples acontecer da vida ganhava um gosto de melancolia e niilismo nesses livros que me agradava profundamente. Mesmo assim nunca o considerei Machado de Assis um de meus autores prediletos. Ele era apenas parte do cânone que a escola nos impõe sem permitir questionamentos.

ON THE ROAD

Há coisas que sei que gosto mas nunca fiz na vida. Sair, por exemplo, sem destino , de carro, ao som de uma boa trilha sonora de clássicos dos anos 60 & 70. Mas nem mesmo sei dirigir. Lembro-me de nos anos de adolescência ter várias vezes saído por aí sem rumo de bicicleta e experimentado um arremedo desta experiência. Nesta época sonhava em ter uma moto quando fosse plenamente um adulto.

Pegar a estrada é um modo de sair das coisas do aqui e agora, provar uma espécie de atemporaridade. Há algo de saudade de uma vida que nunca será vivida.

NUNCA GOSTEI DE TRABALHO

O trabalho nunca ocupou o centro da minha vida. Trabalhar sempre me pareceu apenas uma obrigação banal, uma forma de sacrificar a vida para poder vive-la. Jamais me realizei ou vislumbrei a possibilidade de me identificar através de qualquer persona ou identidade social.  Servir a sociedade como um indivíduo ativo nunca me pareceu uma forma de realização pessoal. 

Sou demasiadamente dado ao devaneio e as artes, a introspeção. Gosto de fazer coisas pelo prazer de não me conduzir a nada. Por isso nunca me preocupei em ser alguém na vida. Sempre me pareceu um desafio mais do que suficiente o simples fato de viver uma vida.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

SOBRE O AGORA

A menor idade, a infância dos atos, que na memória  não cabe, inventa sempre retratos do meu passado.

Penso contra o agora do tempo e a margem da identidade.
Meu lugar é sempre um agora que não me contém.

Adivinho antiguidades de mim mesmo, o agora é sempre o arcaico sentimento do que passou como lugar de identidade.

O sem tempo da memória é pura ontologia...

TEMPO URGENTE

Quando eu era mais jovem me sentia solitário, mas profundamente mergulhado nos ritmos cotidianos da existência.
Hoje me surpreendo fora do mundo, de mim mesmo, e de todas as possíveis possibilidades do acontecer imanente do me fazer humano e banal através de rotinas e identidades.
Vago fora do mundo em idades intempestivas diante da perplexidade dos meus momentos. O agora é feito de interdições, silêncios e envelhecimentos....

sábado, 16 de junho de 2018

SOBRE O INTEMPESTIVO DA MEMÓRIA

É raro lembrar de datas. Cada lembrança remete a sensações, imagens e emoções, que não se dobram a uma linearidade continua e cronológica. Pelo contrário. O tempo não é feito dos anos, de História. Ele insana um devir, o intempestivo. Por isso datas não são importantes. Não é do quando que lembramos, mas do como. É ele que ainda nos acontece, que se atualiza como lembrança.

O ABSURDO BIOGRÁFICO

Com o passar dos anos aprendi que a existência é um acúmulo caótico de experiências, de momentos dentro de momentos, que não conduzem a nenhum propósito.

Entretanto, através dos arranjos seletivos da memória,  estabelecemos sentidos provisórios. Transformamos isso em identidade. 

Acreditamos em nossa ilusão como sujeitos de nossas experiências inventando biografias.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

NOSTALGIAS OU DESENCANTOS?

Em grande medida, a nostalgia que tenho em relação a infância, é alimentada pela simples constatação de que não me envolvo mais com os fatos e com o mundo tal como fazia meu eu infantil.  Está falta de encantamento, de sedução das coisas mais simples, é o que realmente me faz querer o passado de volta. Sou vítima daquele típico desencanto existencial que define a vida adulta.

MEMORIAS GASTRONOMICAS



Quando criança a hora das refeições eram recheadas de sabores e gulodices. Além disso, havia sempre entre o café da manhã, almoço, café da tarde, janta e o derradeiro lanche da noite alguma mastigação. Comer era uma atividade constante e um modo de experimentar o próprio mundo.

Hoje meu apetite é bem modesto. Afinal, o corpo muda e nossas necessidades e prazeres também. Mas tenho saudades daquele período de juventude onde a intensidade das coisas e o ritmo dos dias eram literalmente comestíveis. Domingo, por exemplo, era dia de frango ensopado com batatas e de bolo de banana. Também eram especiais aqueles dias em que minha avó materna, prendada cozinheira, fazia seu delicioso ensopado de carne. Não era raro eu devorar três pratos fundos.

Lembro-me também da farta variedade de doces caseiros que consumia em  boas quantidades. Desde o arroz doce com canela, passando pelo bom bucado até o picolé vendido por ambulantes em pequenas caixas de isopor.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

PASSADO VIRTUAL

Sinto saudades daquele passado que nunca vivi,
Daquele sentimento de felicidade,
Daquele contentamento gratuito e cotidiano,
Que jamais senti.
O passado virtual é um eterno futuro,
Uma fantasia ontológica,
Quase um delírio.
Mas é este sentimento de perda
Daquilo que nunca tive
Que hoje me define em Francas nostalgias.

sábado, 26 de maio de 2018

A UTOPIA DA INFÂNCIA

Envelhecer é um estado de quase ausência. Um modo de existir na mais íntima limitação física. Algo que torna a infância uma espécie de utopia, de não lugar ideal de plenitude da vida.

É na infância, enquanto imagem de evasão e ausência, que nos abrigamos contra as circunstâncias do tempo.

Daria tudo para viver no passado, me embriagar de infâncias, refazer todas as minhas esperanças, na intensidade de um devir criança.

Quantas saudades tenho de mim mesmo...

terça-feira, 22 de maio de 2018

SOLIDÃO E BIOGRAFIA


Poucas pessoas fora do nosso circulo familiar permanecem presentes em nossas vidas de forma continua. No meu caso, nunca tive amigos de vida inteira. Mesmo em amizades perpetuas, as circunstancias da existência interromperam o convívio mesmo com aqueles com os quais, em algum período de existência, como os anos de graduação, estabeleci vínculos estáveis.

Cada um segue seu próprio rumo, sua trajetória pessoal. Ocasionalmente seguimos juntos por algum tempo na mesma direção. Mas isso é sempre uma experiência perene. Na maior parte do tempo lidamos com a consciência do fato elementar de nossa intransponível solidão.

sábado, 19 de maio de 2018

A MATINHA

A matinha era uma área não habitada e parcialmente arborizada à margem de uma rodovia no longo caminho entre a casa dos meus avós maternos e a casa dos meus pais.

É um destes lugares de passagem que ocupam a geografia da minha infância  como um espaço mágico e quase onírico. 

Inúmeras vezes o percorri na companhia dos meus pais,  a pé ou de bicicleta. Tenho saudades deste lugar que hoje certamente já se tornou outro.

Mas o que importa aqui é a mera constatação que a memória não é feita da lembrança de fatos e momentos, mas antes de tudo de lugares que desenham uma verdadeira geografia afetiva. As memórias possuem um chão, é ele é mais importante do que normalmente nos danos conta.

SOBRE A MORTE DO MEU PAI

Já faz alguns poucos anos que meu pai morreu. Mas a experiência cotidiana da sua ausência faz sua morte acontecer novamente sempre. 

Na sua morte cabem todas as mortes. Inclusive a minha.  o tempo da morte não é linear. Define uma espiral que nos envolve e consome. Isso explica minha perplexidade diante da novidade de sua não existência. É como se ela nunca tivesse acontecido e sua falta não fizesse sentido. Não fui ao seu enterro, o que reforça esta minha irracional recusa do seu fim.

O SENTIDO DA NOSTALGIA

Sei que não posso voltar aos anos de infância. Mas isso não torna pueril minha desesperada nostalgia em relação aos primeiros anos ou duas décadas de vida. O que eu realmente queria, era voltar a ser e sentir como naquele tempo, recuperar um modo de saber o mundo através de intensidades. O que realmente me parece absurdo é ter perdido tal capacidade.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

ROBÔS



Para as crianças de hoje, um brinquedo como este, tão popular em no inicio dos anos 80, deve parecer um objeto ridículo e sem atrativo.  Nossas sensibilidades coletivas e codificações de mundo  mudaram muito nas últimas décadas. Isso se percebe de forma realmente escandalosa em nosso modo de representar e dizer as coisas.

Reconheço que sou devedor das formatações culturais década de 70 e 80 do século XX, período no qual cresci.
Este pequeno e rude brinquedo me desperta uma certa nostalgia que se traduz em carinho pelo objeto antigo que um dia me foi tão intimo.

Robôs eram brinquedos muito populares no período aqui citado e acalantavam a fantasia tanto de crianças quanto adultos, demasiadamente otimistas quanto ao progresso tecnológico e o futuro que nos esperava nos anos 2000.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

MEMÓRIA PESSOAL E RECUSA DO TEMPO HISTÓRICO

Os acontecimentos ditos históricos ou sociais ocupam um lugar modesto na geografia de minhas memórias pessoais. Podem se refletir em hábitos epocais , objetos e experiencias midiáticas como programas de TV, mas não são personificados por acontecimentos. Minha memória é seletivamente direcionada para os fatos cotidianos do meu existir privado. Seja no seio familiar ou na rotina  escolar. O acontecer do mundo não me deixou memórias ou marcas existenciais. Muito provavelmente porque os considero descartáveis e meras notícias de jornal. 

O ELO PERDIDO INFANTIL

O que há de mais curioso e banal nas recordações de infância é o fato da experiência de ser criança não apresentar qualquer vestígio. As recordações parecem remeter a um adulto em miniatura que nunca existiu. Mesmo sendo óbvio que meu raciocínio e experimentação de infância são distintos da forma como recordo os fatos, a experiência autêntica do sentir de infância permanece impossível. É como tentar viver os pensamentos de outra pessoa. Mas a realidade é que é exatamente disto que se trata.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O PASSADO NUNCA PASSA

O passado não me acomete como lembrança. Mas como um plano paralelo de acontecimentos perdidos que paradoxalmente ainda acontecem dentro de mim. É como se eu vivesse uma segunda vida que vai muito além da memória. 

A existência não se esgota neste agora que sempre é feito daquilo que já foi. O passado é o único tempo que realmente existe. E nem mesmo precisa ser lembrado para acontecer perpetuamente no desconhecimento constante da minha existência.

ENVELHECER É REINVENTAR INFÂNCIAS

Começar a envelhecer me conduziu a uma valoração da infância, a uma desvalorização da fase adulta, onde nos adaptamos as exigências e códigos da vida social em detrimento de nossas estratégias intuitivas de subjetivação. Existe um devir criança que representa evasões, distanciamentos, de tudo aquilo que nos furta a irreverência e a espontaneidade. A vida se torna insuportável quando nos tornamos pragmáticos e apenas nos dedicarmos ao exercício da sobrevivência.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

TERRITÓRIO EXISTENCIAL

O duplo território, definido pela casa dos meus pais e dos meus avós maternos, configurava toda a minha realidade de infância. 

O mundo era, então, como um lado de fora irrelevante que  quase não possuía efetividade. Nem mesmo a vida na escola foi capaz de desfazer esta impressão primeira da vida que hoje se reinventa na medida em que me desencanto com as verdades tolas do dia a dia.

O fato é que o tempo passa e nossas preocupações privadas e supostamente pessoais, não passam de uma ilusão.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

IMPRESSÃO BIOGRÁFICA

Meus tantos tempos vividos, dá criança, a juventude, a maturidade que anuncia um incerto envelhecimento, não permitem qualquer balanço provisório ou conclusão.

Meu tempo vivido é feito de descontinuidades. É a aleatória combinação de fatos dispersos onde o acontecer do mundo diz mais as coisas do que qualquer subjetividade que eu possa ingenuamente reivindicar.

Por outro lado não reconheço qualquer determinismo. Apenas a impossibilidade de qualquer teleologia.

LEITURAS DE FORMAÇÃO I

TPelo que me lembro, foi no final dos anos oitenta do século passado que comecei a me interessar pelos livros. Isso sem abandonar a paixão pelas HQs.
O mundo vivia um momento de reviravoltas que marcariam profundamente os anos noventa. A queda do muro de Berlim, o fim da URSS e depois a guerra no golfo, além dos confritos no Oriente Médio, mostravam o quanto não havia nada a se comemorar com o fim da guerra fria. Tudo era pura incerteza naquele fim de século de surpreendentes novidades.
Comecei a ler historiografia, literatura e filosofia. Até hoje estes três campos ainda definem meus interesses como leitor.  Minha primeira curiosidade intelectual foi o anarquismo e depois o Marxismo. Por mais que Proudhon e Bakunin me fascinacem acabei me incrinando para Marx e o Marxismo. Afinal, naquele momento, a militância politico partidária era o que parecia mais concreto e efetivo para um morador de província. Como anarquista seria apenas um sonhador isolado vivendo de devaneios de contra cultura. Afinal, na mesma época o rock se consolidava para mim como uma referência identidaria. Logo me rendi a dialética e  Hegel como uma espécie de revelação religiosa.
Como todo adolescente inquieto e solitário eu era demasiadamente ingênuo e voluntarista e vislumbrava a militância política como uma estratégia de socialização. Não demorou muito e me tornei um militante comunista. Como eram tempos de perestroika e crise do movimento comunista,  pelo menos não sucumbi a  um marxismo ortodoxo. Em pouco tempo, mesmo  Flertando  com o anarquismo, passei a me definir como um comunista cuja principal referência era Lukacs e a Escola de Frankfurt. Preferia uma leitura mais filosófica do "jovem Marx" do que seus textos sobre  economia política. Eu não sabia, mas havia me tornado mais um hegeliano de esquerda do que um Marxista. Sartre um outro autor que me dispertou profundo  interesse naquele período e hoje basicamente não me diz nada.

OS TRÊS PLANOS DA VIDA


A trajetória de uma vida está condicionada a três planos aos quais estamos presos: a família, a escola e o trabalho. É o que nos define no mundo. No inicio vivemos sob a tutela de nós pais e a vida privada familiar é o que nos define. A escola nos lança ao adestramento de um existir mais amplo e social que, de um modo muito duvidoso, nos prepara para um existir “produtivo”, ou seja, para o trabalho. É quando as expectativas retornam a reprodução do plano familiar. È preciso encontrar alguém e constituir família, reproduzir o ciclo.

Confesso que sempre me senti deslocado em relação a estes três planos, mas não tive a sorte de me tornar o membro rebelde de uma bem sucedida banda de rock. Tive o destino obscuro e medíocre de quem não nasceu para nada. Não constitui família e muito menos conquistei nome e patrimônio através de um trabalho. Do ponto de vista da sociedade posso ser considerado apenas mais um destes casos de existência banal.



domingo, 6 de maio de 2018

SOBRE OS LIMITES DA MEMÓRIA VIVA

É fato que a memória não dá conta de todas as coisas vividas ao longo do desenvolvimento de uma vida inteira. Ela funciona mais como um filtro que coleciona momentos dispersos e estabelece uma unidade entre eles. Mas Trata-se de uma versão virtual ou um inventário precário de experiências; algo que nada esclarece a aventura de existir.

Sei muito pouco sobre mim mesmo é o modo como me relaciono com meu passado, intermediado por um conjunto de lembranças vagas, dizem mais afetos do que a experiência de mim mesmo.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

MATURIDADE

Quando eu era mais jovem conseguia manter uma relação mais intensa com a existência e todas as coisas que definiam meu cotidiano. Também era mais determinado e cheio de certezas e vontades. Ostentava uma postura ativa e passional em relação  a tudo.
Hoje, ao contrário, tudo me desperta certo ceticismo e sou mais prudente no trato das minhas vontades. Não ostento a mesma vitalidade. Não sei se isso é bom ou ruim. Mas entre os tantos ciclos e descontinuidade  que definem uma  trajetória biográfica, a maturidade e a prudência não são uma escolha, mas uma imposição  do peso da idade.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A VIDA E A MISÉRIA DO PENSAMENTO

Quando eu era criança, havia apenas o sentir e o fazer. Não havia o pensar. Eis o segredo da felicidade e da capacidade de brincar. Perder esta capacidade me parece algo desastroso. Embora faça parte de nossas convenções culturais. Tornar-se adulto é ser escravo de opiniões e pensamentos. Razão pela qual considero a infância à fase mais elevada e acabada da vida. Crescer é um modo de degeneração....

domingo, 25 de março de 2018

VIDA NÔMADE

A vida adulta materializou o sonho adolescente de morar sozinho. Mas me emancipar da tutela dos meus pais em uma cidade muito diferente da qual nasci e vivendo como estudante, estava longe de ser uma realização. 

O fato é que nunca conseguir morar em qualquer lugar que se possa considerar um lar. Há algo de precário e permanentemente provisório no modo como levo a vida. Algo de profundamente solitário. 

Nunca tive vocação para uma existência convencional. Mas não esperava ser tão incapaz de construir uma vida privada que me garantisse algum enraizamento, uma territoriedade pessoal.

Sou escravo de um estilo de vida nômade. Não planejei isso. Mas foi o que acabei construindo para mim má combinação de uma série de variáveis ruins.

ENTRE O PASSADO E O PRESENTE

O tempo presente é para mim uma espécie de simulacro a desdizer passados. Não é o momento onde a vida acontece, mas no qual ela se revela como efêmera na rasa profundidade do imediato. 

O agora é sempre um adeus sem memória do que já se foi. É quase um anti passado. Mas , conforme envelheço, o passado é onde reside todo significado da existência. Mas ele é etéreo, inalcançável e cristalizado.

terça-feira, 13 de março de 2018

INADAPTAÇÃO


Nenhum período da minha existência pode ser considerado convencional. Até mesmo a infância, dado que fui uma criança solitária que se abandonou aos devaneios e jogos lúdicos de seu mundo interior.

Como adolescente, aprendi a ser ainda mais solitário e, na fase adulta, este isolamento existencial se converteu em inadaptidão social crônica. Fui até mesmo incapaz de conseguir um trabalho que me permitisse algum conforto ou construir uma residência simples, mas que pudesse ser definida como um lar.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O INÚTIL ACONTECER DA EXISTÊNCIA

No fundo considero o provisório devir da vida de um indivíduo um encadeamento inútil de vivências destinado ao esquecimento e ao nada. Não importam as realizações e os atos de uma vida inteira. Tudo desaparece depois que morremos. Nossas pegadas se apagam na areia do tempo.

Somos descartáveis enquanto singularidades. Mas é justamente por isso que me abrigo em cada palavra inventando estratégias de esquecimento, rotas de evasão contra o mero passar do tempo.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

SOBRE A NOSTALGIA DA INFÂNCIA

Não há tema mas vulgar do que o envolvimento afetivo e nostálgico com a infância. Afinal, de modo geral, é um momento em que o mundo tem pouca realidade e vivemos abrigados no seio da vida privada, protegidos por nossas figuras parentais.

Passamos a maior parte do tempo desempenhando atividades  lúdicas e o vigor físico e a ingenuidade intelectual garantem, por aí só, nossa satisfação pessoal. Evidentemente, a criança que fui um dia, teria uma opinião diferente sobre isso. Mas, infelizmente,  ela não existe mais e não pode ser consultada sobre o assunto.

O fato é que eu me sentia mais vivo em minhas primeiras idades. Aquele encantamento da vida é algo que definitivamente se perdeu para mim na medida que fui envelhecendo. Não me tornei um adulto convencional porque nunca superei o luto da perda da inocência.

EU E O TEMPO


Enervar-se é inspirar-se contra o mundo.
Afinal não há quem de bom senso
Que não seja contrariado pelos fatos,
Pelo Estado, pelo mercado
Ou pela opiniões publica.

O mundo é uma fábrica de revoltados,
Atormentados e estressados.

A existência é serenamente violenta
E todo dia guarda algo de repugnante.

sábado, 20 de janeiro de 2018

SOBRE O EU E O TEMPO

É estranho pensar que nasci no século passado. Para mim, literalmente, o século XX parece que foi ontem. Minha relação com o tempo presente é mediada por sensibilidades e experiências que escapam aos mais jovens. Percebo cotidianamente que somos de gerações diferentes. Isso me leva a saber o tempo como uma espécie de parede que separa as pessoas, algo que socialmente lhes diferencia para além do envelhecimento físico. Pertenço a uma determinada época, por mais que eu me sinta contemporâneo. Aos poucos vou perdendo meu lugar no tempo presente...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

SOBRE A BANALIDADE DA VIDA

A vida cotidiana é um encadeamento continuo de momentos banais destinados ao esquecimento. Inventamos um sentido para nossas experiências. Mas qualquer narrativa biográfica é apenas o exercício de um afeto pela existência quando, em sua matéria bruta, ela não ostenta qualquer significado inato. A teleologia é a arte de inventar a nós mesmos através do tempo e do espaço. Mas uma história de vida é um artifício simbólico que rasa e precariamente nos explica em nossa afetiva e cega relação com a existência.    



domingo, 14 de janeiro de 2018

DESENCONTRO

Por ser uma pessoa introspectiva e voltada para imaginação íntima, sempre tive dificuldades para lidar com o mundo. O primado de mim mesmo se impôs em minha relação com os outros e, ironicamente, justamente por isso, nunca consegui me entender comigo. Minha existência se consolidou como um desencontro absoluto.

A CAIXA VELHA

A memória é como uma caixa velha cheia de objetos quebrados. Mas eles são tudo que temos e não podem ser descartados. É nossa bagagem no devir sempre incerto do tempo vivido.

Por outro lado a memória não informa ou sustenta o agora. É, pelo contrário, sua negação. A caixa velha é onde nos procuramos... é onde também nos perdemos.